‘O Pequeno Príncipe’: entrevista com diretor Mark Osborne e Marcos Caruso que dubla o aviador

Filme encerrou o Festival de Cannes e fez 2ª Première Mundial aqui no Anima Mundi 2015

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13 de julho de 2015

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Nesta segunda-feira, num ensolarado 13 de julho, o diretor Mark Osborne (“Kung Fu Panda”) e o ator Marcos Caruso (de grandes novelas como “Avenida Brasil” e filmes como “Cilada.com”), sentaram numa coletiva de imprensa à beira da vista da praia no Hotel Marina para descortinar o novo filme do eterno clássico da literatura de Antoine Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”, dirigido pelo primeiro e dublado pelo segundo. O encontro contou também com a presença do filho de Mark, Riley Osborne, que dublou o Pequeno Príncipe na versão em inglês do filme. E a conta disso a primeira pergunta foi se o cineasta se inspirou nos próprios filhos nos personagens do filme?

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Mark: Por mais que quisesse, há muito mais em expressões e articulações de realizar estes personagens do que poderíamos capturar de meus filhos. Sim, eles até serviram como uma inspiração inicial, no que os vários artistas que trabalharam no filme tiveram liberdade para criar. Mas fico feliz que notaram semelhanças.

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A seguir, devido à crítica que o filme faz aos tempos corridos e a exigência feita as crianças desde cedo por excesso de responsabilidade e obrigações a cumprir, perdendo parte da infância, Mark disse que isto se conectava com a sua própria experiência do agora.
Mark: Isto é um conceito contido no original, nos personagens adultos dos outros asteroides. Sempre podemos ir mais devagar e olhar as estrelas, pois hoje tudso passa muito rápido e com tantas tarefas.

 

Marcos Caruso: Não havia visto ainda o filme todo, apenas as partes que dublei, e realmente me passou uma rasteira. Fiquei emocionado com a pegada. Quem são essas crianças de hoje? Devemos nos preocupar mais com o humano do homem, o sentimento humano do q as possibilidades de compromisso ou escola, com escolhas que vão estar ali pro resto da vida. Já o sentimento em relação às coisas só vai existir se tiver isso desde a infância.

Mark: O filme retrata a realidade. Tanto que apenas ontem, sentado num banco na praia vendo meu filho brincar é que percebi ter relaxado simplesmente parando para não fazer nada desde que comecei este projeto.

 

Almanaque Virtual: Há uma crítica no filme aos excessos da tecnologia e de sua velocidade, contudo sem aparecer praticamente nenhuma tecnologia no filme todo, nem celulares ou computadores. Contudo o cenários do filme em si são bastante tecnológicos, como se tudo fizesse parte de um circuito, ruas, carros, que vistos de cima parecem um microchip, e as pessoas mecanizadas. Esta escolha foi intencional?

Mark: O livro é timeless/atemporal. Então queria que o filme também fosse. Sem i-phones que vão ficar datados muito rapidamente por novas versões ou modelos. Queria fazer o filme sem marcar o tempo… Contemporâneo. Fácil de se relacionar. Então inseri a tecnologia na arquitetura geométrica dos prédios, dos adultos, ajudando a sentir menos orgânico o mundo dos crescidos, como um contraste com o outro lado, o da casa do aviador, muito mais orgânica, que poderia conter o livro original do “Pequeno Príncipe”.

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Almanaque Virtual: Pode-se ver no filme um amor muito grande pelas animações em geral. Tanto que há referências a várias outras obras, e até ao Mestre japonês da animação já citado como referência para este filme, Hayao Miyazaki. E, apesar de conter a história de “O Pequeno Príncipe”, o filme apresenta novos personagens que são também releituras dos antigos, como o aviador do original que agora está mais velho, e a menina, como se fosse uma nova pequena princesa, mas que poderia ser qualquer criança a conhecer e se encantar com o livro. Como foi usar as referências e esse amor pela história da animação, em ângulos e enquadramentos familiares, para dar uma sensação de velhos conhecidos aos personagens novos?

 

Mark: Sim, há um amor muito grande pela animação. Por isso quando falamos com os animadores, as referências e sensações realmente vieram numa mesma sintonia. Todos tinham bagagens e preferências muito parecidas, talvez a mais clara e constante tenha sido de fato Miyazaki, apesar de haver outras. Uma das mais utilizadas é o “ma” como Miyazaki chama: que seriam os momentos entre cenas, as  tomadas em que não aconteceria nada na teoria, mas a paisagem que é mostrada diz muito. Outra coisa é que o mundo dos adultos é reto e achatado ou claustrofóbico e barulhento. Já no ambiente do personagem aviador tudo é mais amplo pra criar ângulos convidativos, como no jardim ou no telhado para as estrelas. Quase uma viagem de montanha russa, um universo especial que só existiria no filme. Só pode haver lá.

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Como foi adaptar uma história tão importante e como foi receber a reação do público?

 

Mark: Quase uma missão. Todos q participaram falavam o quanto amam o livro, então tinham muitas dúvidas de como poderia ser adaptado. Mas não seria bem uma adaptação, e sim um tributo. O livro assume riscos. Então também fiz. E a reação foi linda, sempre dando uma ansiedade mesmo assim cada vez que passava. Que quem ama goste do que já havia ali dentro, e quem não, descubra.

 

Caruso: A estranheza de ver o príncipe fora do papel, mas na verdade não parece que o Pequeno Príncipe saiu do livro e sim que eu entrei.

 

Mark: Sim, pras partes que retratam o Príncipe, criamos um mundo à parte, mais calmo, feito de Papel Maché e a técnica de stop motion. Na verdade, o principal responsável por esta parte foi Jaime Calieri, animador em stop motion e fotógrafo. Veio dele a sensação de outro mundo, mais calmo, inspirado no papel onde a própria história foi escrita conectada com as ilustrações originais do autor Antoine de Saint-Exupéry. Vi os manuscritos escritos à mão num cofre em NY. De tão incríveis e frágeis e efêmeros, poderiam ter se perdido. Uma animação demora anos para ficar pronta, mais de 300 pessoas trabalhando até os temas ganharem vida. Fizemos muita brainstorming (troca de ideias). Algo tão forte que tínhamos de avaliar quais ideias estão lá no original e quais não estão lá. Um eco do livro. Como a ideia para os novos personagens como reflexos invertidos do livro: Agora tínhamos um personagem mais velho quebrado e uma jovem inocente que ajuda, enquanto que no livro o pequeno príncipe está quebrado e o personagem mais velho é o inocente que o ajuda. Tudo conectado pra sentir.

 

Mark: Com a trilha sonora, por exemplo, Hans Zimmer que já trabalhara comigo em “Kung Fu Panda”, sempre tenta achar um som único, pois trilhas podem parecer iguais. Não era um típico projeto, e Hans não queria que soasse como todos os outros. Ele teve a ideia de usar Camille, uma cantora francesa, como colaboradora, pois a voz dela é pura e inocente, tudo conectado. Queria que tivesse sensação francesa. Ontem, na Première no Anima Mundi, ouvimos a versão em inglês, mas ela também gravou a em francês, poliglota, acho que conseguiria até ter cantado em português se ela quisesse.

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Como foi para Caruso reler o livro para dublar o personagem do aviador mais velho?

 

Caruso: Eu ia pra Miami um dia após o convite, e passei numa livraria do aeroporto para comprar. Pois chorei tanto na viagem… Bateu de outra forma do que há cinquenta anos. Emocionou ainda mais.
Agora tenho netos. E sempre incentivo que conjuguem mais o verbo ser do que o verbo ter. Sentir e ‘ser humano’, e não ‘ter humano’. Já a prática em si de ter dublado o personagem foi terrível, pois eu não tinha nenhuma experiência em dublagem. Tive de pegar com coragem como tudo na vida. Agora, se eu acho que agrega valor possuir no projeto um ator com nome mais conhecido como dublador? Até que sim, mas pouco, muito pouco. Admiro muito o trabalho dos dubladores experientes que chegam lá e  fazem parecer tão fácil.

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Neste momento, para não entregar nenhum spoiler do filme para o público que ainda não viu, apesar de a imprensa ter visto na noite anterior, quando perguntado se o Pequeno Príncipe e seu mito poderia estar ameaçado pelos dias de hoje, estes  dias em que tudo é uma máquina e tecnologia, ele responde de maneira decidida:

 

Mark: É sempre através de uma criança que seu mito permanece. Que volta a ser criança.

 

Caruso: É voltar à sua praia (usou como analogia à nossa vista da Praia do Leblon). Cadê minha raiz? Mesmo um ator famoso tem que resgatar suas raízes, por exemplo. E o mais incrível é que o Mark fez três filmes dentro de um. Um filme para o novo milênio.

 

Mark: Eu quis expressar os medos mais escuros da garotinha, de crescer e virar adulto, sozinho…. O que nada mais é do que outro lado do medo de morrer, de mortalidade. Afeta a todos. É esse pesadelo que a menininha e todos nós temos que enfrentar. E isso é possibilitado ali graças a como o livro nos muda, abre caminhos, dependendo de quando lemos em nossa vida.

 

O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince)

De Mark Osborne

Com vozes no original francês: Marion Cotillard, Vincent Lindon, Vincent Cassel, André Dussolier, Guillaume Gallienne, Florence Foresti, Andrea Santamaria, Clara Poincaré

Com vozes na versão em inglês: Jeff Bridges, Rachel McAdams, Paul Rudd, Marion Cotillard, James Franco,Benicio del Toro, Ricky Gervais, Bud Cort, Paul Giamatti, Albert Brooks and Mackenzie Foy, Riley Osborne