O Pequeno Príncipe

A imortalidade do crescer quando não se dá asas ao esquecimento

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20 de agosto de 2015

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“O Pequeno Príncipe” é uma das obras mais importantes e atemporais da literatura. E uma das raras cujos significados precisam ser lidos tanto na infância quanto redescobertos com outro olhar na fase adulta, para complementar sua total compreensão. Há coisas no livro que só podem ser traduzidas ao olhar de uma criança, e outras ao de um adulto. Por isso a dificuldade de se adaptar a história para os cinemas. Ela é tanto acre quanto doce, liricamente ingênua e metaforicamente complexa. Em 1974, Stanley Donen fez uma versão notável e musicada com Gene Wilder imortalizando a raposa e Bob Fosse a serpente. Agora, o diretor Mark Osborne, do excelente “Kung Fu Panda”, traz uma nova adaptação, respeitando o original e acrescentando uma nova história que a contém e protege.

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Só a ousadia de expandir o universo do livro e invertê-lo como em uma ampulheta do tempo cujas areias nunca se perdem, apenas se invertem de polaridade a cada geração, nós também, crianças e adultos, mudamos de lugar com os clássicos e os novos personagens, de acordo com a fase de vida. Explica-se: uma garotinha a quem é exigido ser adulta muito cedo, como os tempos frenéticos da internet e  da globalização o fazem, vira amiga de um velho aviador desacreditado, mas criança de alma, o qual apresenta o conto original do Pequeno Príncipe para ela. Inversamente proporcional, há uma criança e um adulto também na história dentro da história, apenas em situações opostas: enquanto o pequeno príncipe é uma criança madura, mas desencantada, que precisa do aviador para voltar a acreditar na beleza e no amor, a menininha introduzida neste novo filme ajuda um aviador agora bem mais velho e abandonado a voltar a ser criança e a amar. Então, o famoso livro permanece intacto dentro desta adaptação, contado à risca: De princípio coadjuvante, depois protagonista, e ao final fundindo-se as duas histórias que passam a ser uma só, mostrando que, como um Peter Pan, o texto de Exupéry pode permanecer eternamente jovem.

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Por falar em Peter Pan, e adentrando a parte técnica, a direção de arte é um primor e cheia de referências, demonstrando clara paixão de Osborne pela história da Animação e Fábulas em geral, desde “O Jardim Secreto”, “Coraline”, e até o mestre dos desenhos, não curiosamente também fã nº 1 de “O Pequeno Príncipe”, o japonês Hayao Miyazaki, cujas texturas e ângulos de câmera de filmes como “Meu Amigo Totoro”, “A Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihiro” são em muito emprestados com amor. Contrastes na construção de mundos, entre a friamente cinzenta e mecanizada cidade dos adultos, e a multicolorida e florida casa do velho aviador, demonstram bem a intenção de contar a história por belos traços e ideias imagéticas que prescindem dos diálogos para se fazer inteligíveis. Porém desbrava além: além da computação gráfica, em outros trechos é usado o método clássico de stop motion, que se trata de filmar quadro a quadro bonequinhos dos personagens, aqui feitos todos de papel machê, para retratar especialmente os rascunhos do autor no próprio livro, como se as páginas ganhassem vida. Desde a areia das dunas, à fumaça do avião caído, e até as estrelas, todas de papel machê. Assombrosamente delicado. Por tudo isso, não é uma obra comum, eis porquê foi orgulhosamente escolhida para encerrar o Festival de Cannes e para abrir o Festival Anima Mundi deste ano. De fato, o livro e a versão live action de 1974 falam muito mais por exemplo de personagens cruciais como a serpente que quer dizer morte/ciclo da vida, mas ousa bem ao metaforizar as questões como da serpente na fábrica e maquinários ao na terça parte final, da vida eterna da imaginação, e que o crescimento do Príncipe só significaria ‘morte’ do Pequeno se ele desse asas ao esquecimento. Alguns leitores xiitas da obra podem ser um pouco resistentes de início pela aparente diminuição do pequeno príncipe, com acréscimo da garotinha, mas entenderão que ela também é uma pequena princesa, tanto quanto leitora do livro, fazendo com que nós, espectadores, também nos sintamos pequenos príncipes atemporais – seja qual for a idade…

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Marcelo Cardoso

    A avaliação do Filippo foi perfeita, nada a acrescentar. O filme capta a essência do autor, é belíssimo sob todos os aspectos e ousar fazer uma “continuação” à obra foi fantástico. Nota 10 para a crítica e para o filme.