O Rio nos Pertence

O Capítulo mais engajado da Operação Sonia Silk esmiuça a Cidade Maravilhosa

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12 de junho de 2015

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Abrindo um pouco mão do rigor estético-lírico do filme anterior da Operação Sonia Silk, “O Uivo da Gaita” de Bruno Safadi, e desta vez dirigido por Ricardo Pretti, do ainda inédito no circuito “De Punhos Cerrados”, a inovação plástica como parte do conceito de baixo orçamento e ideias mais experimentais do projeto como um todo ganha contornos sociológicos em “O Rio nos Pertence”. Como o título já diz, a figura central deixa o âmbito íntimo, como ‘o uivo de uma gaita’ metaforicamente dá a entender, e relaciona mais o indivíduo com o seu meio, o Rio de Janeiro, como cidade e como elemento transformador e transformado. Desta vez alternando com Mariana Ximenes, Leandra Leal assume o manto do protagonismo, enquanto a amiga se torna sua irmã coadjuvante, ambas vivendo um inferno incógnito do passado sob a possibilidade de seus pais terem se matado ou não, e onde fugir da cidade, mesmo que para outro país, não pode tirar a cidade de dentro de você.

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Assumindo um pouco mais um gênero cinematográfico para contar sua história, o cineasta traça vários flertes bem aplicados com o horror psicológico, graças a uma carta que a personagem de Leandra recebe nos EUA que a perturba de tal forma a ponto de trazê-la de volta ao Rio, deixando todo traço de identidade agregada ao presente para trás. Os únicos dizeres eram as palavras: ‘o Rio nos pertence’, cortando abruptamente o paraíso de amor nos braços do ser amado com quem ela começa o filme na referência bíblica de Adão e Eva, o mundo que o ser humano e seu livre arbítrio criou para si, afora do Pecado Original. É como se para o Jardim Renegado do Éden, nossa Cidade Maravilhosa, que ela retorna, num resgate de responsabilidade social, pois se um dia abandonamos e não confiamos mais, é porque demos causa a isso e somos igualmente responsáveis.

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Toda a narrativa se passa nas sombras, e todas as paisagens-assinaturas do Rio são vistas sempre de esguelha ou através de janelas, cortinas ou com efeitos sonoros e urros dolorosos na trilha sonora cheia de improvisos do jazz. Com imagens impactantes súbitas, como um suicídio incógnito ou até um infanticídio psicológico, como se dissesse que mesmo acuados não adianta renegar sua ascendência ou rejeitar a descendência órfã de segurança social, seja da violência, seja da economia desvairada e etc… Pretti imprime sua verve mais engajada, de modo bastante limítrofe ao projeto no conteúdo, mas tem pulso firme para manter as rédeas dentro do tema mais formal da trilogia, como um novo Dogma 95 de se filmar. Seco, porém intenso, suas personagens significando mais alegorias do que personas propriamente ditas, “O Rio nos Pertence” é um caso a parte dentro da imperdível Operação Sonia Silk, e por isso mesmo não pode deixar de ser visto.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4