O Uivo da Gaita

A Gaita da Gata ainda tem muito o que Uivar -- Um balé de quadros sonoros cheios de volúpia

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06 de junho de 2015

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O debate sobre filmes ultra estéticos precisarem ou não ter conteúdo, e se autovalidariam por si só, é bastante antigo. Muitos já foram acusados de privilegiar a plasticidade, alguns presos a ela, como Tarsem de “A Cela” e Zack Snyder de “300”, outros verdadeiros artistas poéticos como Wong Kar-Wai de “2046 – Os Segredos do Amor”. Felizmente é com este último que resguarda afinidade a ousadíssima Operação Sonia Silk composto por três filmes de baixíssimo orçamento: “O Uivo da Gaita”, “O Rio nos Pertence”, “O Fim de Uma Era”, não necessariamente interligados em história, porém de cunho extremamente estético e sonoro crescente, com interpretações mais para danças cênicas de enquadramentos perfeitos.

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O primeiro filme, “O Uivo da Gaita”, dirigido e roteirizado por Bruno Safadi, já inaugura o projeto com alta carga de erotismo nos gestos mais sutis, quando como os vestidos se deitam sobre os corpos das protagonistas Mariana Ximenes e Leandra Leal, mas nunca de forma gratuita, e sim predestinada pela linguagem metafórica de um artesão seguro e criativo. A história, apesar de quase sem diálogos, subentende-se como um fastio bem de romances de 1800 sobre o mal do século, uma depressão pós guerras cujos ideiais se esvaziaram, as riquezas se acumularam e ninguém sabia mais o que fazer com isso a não ser se acabar na decadência-chique. A isto subentende-se a situação da protagonista, aparentemente cansada em sua mansão com um marido que lhe dá tudo (Jiddu Pinheiro, ligeiramente dissonante), em banquetes opulentos e jogos mentais e físicos com a melhor amiga do casal.

A grande riqueza se encontra justo nestas cenas tão elaboradas quanto uma obra de artes plásticas, combinadas à trilha clássica apoteótica e efeitos sonoros criativos, como a agulha arranhando a vitrola ao invés de tocar o disco, ou um incessante pingue pongue cuja bolinha sempre cai ritmada como um cabo de força entre os únicos 3 personagens em cena. Mitos do cinema como o cineasta Stanley Kubrick já foi acusado anteriormente de virar um ditador na direção de artistas, exigindo uma marcação cerrada, sem nunca privar a arte de seu espírito em troca de artificialismo. Da mesma forma não há artificialismo em “O Uivo” que não o intencional, para dispor personagens de quadros em movimento, provocativos e exuberantes. Ênfase para a lírica cena de sedução entre as atrizes na praia e que depois vai mudando de perspectiva de acordo com que a câmera afasta-se do local e dos closes, para mostrar o que é imaginação e o que é realidade e quem fabrica um ou outro…. Ou o banquete de sushi, comida a ser servida apenas fresca, cuja louça onde é servida a comida vai se derrentendo com ruídos escruciantes como se traduzisse a relação do casal que ali almoça, já que as paixões são tão passageiras e explosivas quanto.

Um filme sobre desejos, sobre o não-dito, com curvas lascivas do Rio, bastante feminista sem ser apenas feminino, e sim universal, emancipatório. Sobre viver o momento apaixonadamente e que as atrizes e personagens poderiam ser qualquer um, em qualquer um dos três filmes do projeto. Talvez aliene alguns espectadores pela proposta interpretativa, mas creiam que as respostas estarão todas lá sempre em um novo olhar, basta sentir ao invés de simplesmente assistir.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5