O Último Cine Drive-in

por

20 de agosto de 2015

O cineasta brasiliense Iberê Carvalho, logo em sua estreia na direção de um longa-metragem, conduz uma homenagem sóbria ao cinema, sem espaço para sentimentalismo ou louvor exagerado. Filme que já passeou por festivais, “O Último Cine Drive-in”, capaz de dialogar com o público em geral, propõe em sua motivação cinéfila a reflexão sobre uma condição muito recorrente ― a batalha coletiva dos que precisam sobreviver um dia após o outro. Na trama, Marlombrando (Breno Nina) viaja até Brasília com Fátima (Rita Assemany), a mãe doente que precisa de tratamento. Sozinho no mundo após conseguir uma internação para ela, o jovem é obrigado a recorrer a Almeida (Othon Bastos), o pai praticamente desconhecido em virtude da ausência, em busca de ajuda e abrigo.

Para Marlombrando, e também para o público que acaba acompanhando o filme sob a ótica do personagem, o meio de sustento do pai Almeida (Othon Bastos), o último cinema drive-in do Brasil, é como uma ossada tristemente exposta. O resto que tem nas vagas do estacionamento vazio seu jazigo perfeito. O que Marlombrando não esperava encontrar nesse reencontro indesejado é o feixe de vida, mesmo agonizante, que escapa pelas frestas das paredes daquele lugar quase expurgado de sua memória. O Brando desvalido, curvado com o peso do nome célebre (grafado de modo canhestro) que carrega na certidão, só tem um destino possível: entrar naquele universo, tão decadente quanto ele, para revisitar a própria história e, talvez, mudar os rumos de seu futuro.

Em “O Último Cine Drive-in”, a noção de sobrevivência emana de todos os lados. Desde a luta contra a morte iniciada com o diagnóstico do câncer de Fátima até a resistência contumaz do cinema ao ar livre. Dessa certeza, nem a relação de pai e filho, aparentemente morta, escapa. Ali, ainda respira um afeto que pode ganhar força com a convivência. Paula (Fernanda Rocha) e José (Chico Sant’anna) são os soldados aguerridos que mantêm o cinema em funcionamento. A gravidez já visível de Paula, cuja paternidade é questionada com sutileza, sugere que a amargura ranzinza de Almeida não é tão infértil quanto parece. De modo discreto, mas com eficácia impressionante, “O Último Cine Drive-in” traça um paralelo com as constantes metamorfoses enfrentadas pelo formato de exibição cinematográfica. Da película ao digital, da sala de cinema à sala de estar, do polêmico download ao streaming, do VHS ao Blu Ray. Uma roda viva. O canto do cisne do drive-in de Almeida, iluminado pela luz do projetor a todo vapor, é a prova viva de que a esperança, aliada ao trabalho árduo, é a última que morre.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4