O Universo Graciliano

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07 de maio de 2015

A escolha de uma grande personalidade como alicerce de um documentário é o primeiro passo para atrair interesse do público. O cineasta Sylvio Back, seguindo esse princípio, escolheu uma das mais célebres figuras da história da literatura brasileira e dirigiu “O Universo Graciliano”. Movido pela intenção de mostrar o homem Graciliano Ramos (1892–1953), oculto na genialidade literária do alagoano, Back executa uma operação de humanização, quase dissociando o homem da obra. O imprevisto foi a lacuna exposta, um vácuo que diz respeito à falta de vontade de trafegar na imensa contribuição cultural do escritor. Os depoimentos que cobrem todo o filme, muitos deles até autênticos demais, formam uma sustentação que carece de consistência. Onde foram parar os frutos diretos da inspiração de Graciliano Ramos?

Estruturalmente, “O Universo Graciliano” é bem convencional, um artesanal esquema de gravação de depoimentos que tenta conceder ao espectador a possibilidade de conhecer Graciliano Ramos como pessoa, de acordo com a percepção de cada um. Infelizmente, o universo engendrado por Sylvio Back parece limitado demais, longe da complexidade universal do título, apenas apoiado nos entrevistados. O arquiteto Oscar Niemeyer, o poeta Lêdo Ivo e Luiza Ramos Amado, filha de Graciliano, são alguns deles. Fica a sensação de que algo importante ficou esquecido no meio do caminho, talvez a chance de dissecar melhor a humanidade do criador por meio de suas próprias obras. Durante a projeção, percebe-se que as palavras mais interessantes são provenientes de um historiador, Ivan Barros, que compartilha experiências do escritor em tom literário. Um convite para o bom funcionamento do imaginário do espectador no sufoco de uma direção pouco esforçada.

O filme comenta passagens da vida do homenageado como suas relações amorosas, o período no cárcere, a experiência como prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, e a incursão no Partido Comunista Brasileiro. No ritmo de “O Universo Graciliano”, as entrevistas são muletas para a pesquisa do cineasta que certamente poderia enveredar por um caminho mais árduo, a recompensa valeria o esforço. Já que o assunto é cinema, o documentário prova que pérolas do Cinema Novo que reviveram a obra de Graciliano Ramos têm muito mais a dizer sobre o gênio que a gerou. “Vidas Secas” (1963) e “Memórias do Cárcere” (1984), ambos de Nelson Pereira dos Santos, e “São Bernardo” (1972), de Leon Hirzsman, são dignos tributos cinematográficos.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3