Olhos da Justiça

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09 de dezembro de 2015

A confirmação da refilmagem hollywoodiana de “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), de Juan José Campanella, produção argentina vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, reaqueceu a ira de afirmações que apontavam a recorrente dependência criativa, ou mesmo oportunismo, por parte da indústria de cinema norte-americana. No caso específico desse remake, com direção de Billy Ray, surgiu o questionamento da necessidade da visão atualizada já que o longa original é extremamente recente, além de entronizado ao nível de obra-prima. Refilmá-lo não deixa de ser um ato de coragem, colocando-se contra a parede à espera do lançamento de pedras. Para virar o placar, seria necessário assumir a dependência de “Olhos da Justiça”, torná-lo indissociável da fonte original. A participação, como produtor executivo, do próprio Juan José Campanella na gestação do filme é sinal máximo desse vínculo, uma qualidade capaz de abrandar os ânimos mais passionais.

O roteiro de “O Segredo dos Seus Olhos” é dotado do tipo de inventividade que recorre à surpresa verossímil, capaz de alterar os rumos da história. Plot twist de melhor qualidade que aumenta a força dos minutos finais. Tal recurso, bastante efetivo em um primeiro olhar, muda de figura no segundo contato ― a potência da virada no roteiro esmorece, ainda que a revisão permita maior apreensão de detalhes. Na intenção de livrar-se parcialmente da armadilha, “Olhos da Justiça” mantém intacta a essência da temática policial, tem de fato mais aparência de thriller do que o longa argentino, mas cria uma blindagem contra o incômodo provocado pela previsibilidade inevitável. O objetivo é fisgar a atenção (bem como o respeito) do espectador já familiarizado com o primor, incluindo a reviravolta, de “O Segredo dos Seus Olhos”. Um modo de agir bem ao estilo “o que importa não é o fato em si, mas os acontecimentos que levaram ao fato”.

Na trama, Ray (Chiwetel Ejiofor) remói por 13 anos as circunstâncias do assassinato da jovem Carolyn Cobb (Zoe Graham), caçando por conta própria o criminoso que escapou das punições da Justiça. Uma liberdade, em ambos os longas, providenciada por estratagemas de interesses políticos. Após os anos de investigação individual e sigilosa, Ray resolve solicitar a reabertura do caso de Carolyn. Para isso, ele deve convencer a procuradora Claire (Nicole Kidman) e, simultaneamente, enfrentar as lembranças de um romance não consumado com a bela mulher. Peça fundamental da boa condução de “Olhos da Justiça” é a personagem de Julia Roberts, a policial Jess, mãe da jovem estuprada e morta. Na terrível ocasião, ela e Ray, agentes do FBI, foram convocados para a cena do crime: um corpo foi encontrado com sinais de violência extrema dentro de uma lixeira. Um dos pontos altos do filme fica por conta da descoberta de que a vítima trata-se de Carolyn, filha única de Jess. A cena, protagonizada por Chiwetel Ejiofor e Julia Roberts, esbanja tensão máxima. O contexto no qual acontece o crime hediondo, em Los Angeles no ano de 2002, remonta a paranoia de caça aos terroristas após o fatídico 11 de setembro. Sai o contexto de época, da pré-ditadura argentina em “O Segredo dos Seus Olhos”, e entra os meandros operacionais da “guerra ao terror”, ponto nevrálgico da política norte-americana. Decisão acertada que chega aos cinemas em momento propício. Não se pode ignorar reações naturais do espectador ― a comparação dos personagens atuais com os desempenhados por Ricardo Darín e companhia, assim como a identificação de similaridades, ou diferenças, nas abordagens cinematográficas. Algumas cenas, como a da caça ao assassino em um estádio esportivo ou quando Ray e o colega Bumpy (Dean Norris) invadem uma casa em busca de provas de incriminação, são particularmente semelhantes. Uma coisa não se pode negar: mesmo assumindo a dependência, “Olhos da Justiça” ostenta bons momentos de válida desvinculação. Quem entrar no cinema pronto para odiar, só terá a perder.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4