Olmo e a Gaivota

A Ópera lírica da gestação da arte entre o real e o ficcional

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11 de outubro de 2015

O que é a linguagem cinematográfica? Como dividí-la e segmentá-la de modo mais básico para poder estudá-la e evoluir? Em ficção e não ficção? Bastaria? E quando estas áreas se confundem? É desta linha tênue que nascem os projetos da cineasta Petra Costa, misturando pegada documental com narrativa tradicionalmente pertencente à ficção. A diferença é que o resultado da proposta é sempre recitar um poema de vida muito mais do que só uma história. Foi assim com o cult absoluto para o panteão do cinema “Elena”, onde a cineasta esmiuçou a vida de sua irmã que se suicidou, atriz aspirante, cujo desejo de morte se descobria grande fonte de pulsões criativas, neste amálgama entre a destruição e a criação da arte. Pois em seu novo filme em conjunto na direção com a estreante dinamarquesa Lea Glob, “Olmo e a Gaivota”, invertem a balança e acompanham a gestação de uma amiga atriz ítalo-francesa conforme sua rotina e profissão desmoronam, onde agora é a arte que cria vida.

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Sobre criatividade, há muito o que se debater de seus filmes dependendo das várias correntes críticas, inclusive do lado ético. Há uma parcela de especialistas do cinema que se indaga sobre a dualidade moral de ter se explorado as memórias da saudosa irmã no documentário “Elena”, ou mesmo se o “Olmo e a Gaivota” seria especial mais pela escolha da gestante certa com muito o que mostrar do que pelo olhar de quem mostra. Mas este crítico que vos escreve se afilia à corrente de que os fins justificam os meios, e que sem o talento da pessoa certa por trás das câmeras para lapidar o diamante, estas histórias poderiam permanecer escondidas sob uma pedra de carvão. O olhar apuradíssimo para grandes imagens, a fotografia gentil e microscópica em todos os momentos mais íntimos das personagens reais, além de uma mise-en-scène impecável, onde nunca se dá pra notar a diferença entre interpretar a si mesmos ou agir naturalmente, fazem parecer que se está assistindo um grande roteiro de drama europeu como poucos ao invés de atos aleatórios do cotidiano documentado, que poderiam jamais orquestrar tamanha ópera lírica, nem com horas perdidas numa mesa de edição e montagem à la Big Brother.

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O fato é que a peça dentro do filme, “A Gaivota” de Anton Tchekhov, sendo encenada pelo grupo Thêatre du Soleil, tem tudo a ver com o casal principal que a interpreta, a gestante Olivia e Sergei o pai da criança, pois a personagem central feminina Arkadina é mãe do protagonista da trama, o qual disputa a atenção materna com o namorado dela, Trigorin, na pele de Sergei. E é sobre esta delicada relação que se trata o longa. Como uma aparentemente simples barriga crescendo pode significar tanto, em alegrias, dores, medos, angústias e mesmo solidão em uma vida conjunta. Por mais que o casal passe por isso junto, apenas um pode saber o que é gestar. E acrescenta-se a isto intrigas do afastamento do trabalho pelos riscos na gravidez, das amizades, do ciúme, e até de arrependimentos de vida, como ex-namorados e a perspectiva das diferenças que os rumos poderiam ter tomado. Pode não ser tão completo como “Elena”, porém especialmente para os casais que já passaram ou passarão por isso, é o guia emocional definitivo da identificação com o milagre que é gerar um novo ser a partir de nós mesmos.

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Festival do Rio 2015 – Competição Longa Documentário

Olmo e a Gaivota (idem)

Brasil / Dinamarca / Portugal / França, 2015. 82 min.

De Petra Costa, Lea Glob

Com Olivia Corsini, Serge Nicolai

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5