Para Minha Amada Morta

A investigação policial de um amor fragmentado em um dos melhores filmes do ano

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01 de abril de 2016

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O diretor Aly Muritiba já prometia bastante em seus curtas metragens, como “A Fábrica” e o inquietante “Tarântula”. Agora estreia seu primeiro longa metragem de ficção, “Para Minha Amada Morta”, com roteiro previamente premiado em Sundance/2013, e traz todo seu apuro estético, visual transgressor com domínio do uso de superfícies reflexivas, sejam imagens refletidas em um olho, ou em espelhos quebrados e sujos, na janela de um ônibus, ou na própria alma dos personagens e do espectador. Isto combinado a uma tensa história de identificação universal para arrebatar não apenas a crítica, visto que já saiu vencedor de diversos prêmios no recente Festival de Brasília, como alcançar o grande circuito que talvez não tivesse acesso antes a seus curtas. Com uma trama extremamente intimista, porém criando fácil identificação com o espectador pela familiaridade com o gênero policial, ele brinca muito bem com arquétipos dramáticos misturados a pitadas de suspense, dando tempo ao público para conhecer seus personagens antes mesmo de saber qual seria o envolvimento entre eles ou o motivo de tal fixação.

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Tudo começa com um fotógrafo forense (o impecável Fernando Alves Pinto) que trabalha para a polícia e que está de luto junto com o filho pelo falecimento de sua amada esposa, sem que seja revelado o motivo ou circunstâncias de sua morte…, e muito menos de sua vida. Como era a convivência do casal para se amarem tanto? Como estaria sendo encarar esta perda? De repente, ele se coloca numa investigação compulsiva que o distrai do trabalho e até da criação do filho, acabando por se mudar para perto de uma família evangélica e humilde de quem começa a se aproximar demais. Esta aproximação é tensa desde o princípio, como um espelho a projetar anseios na família ‘perfeita’ alheia, de acordo com que cria estranhos laços de maneira diferente com cada membro: o patriarca, a mãe, a filha mais velha e até o cachorro. Seria para acreditar em alguma coisa? Em Deus como eles acreditam? Teria enlouquecido? É deste princípio que Aly constrói um suspense sensivelmente visual, onde  a câmera nunca aponta para uma direção sem significados, como nos melhores romances policiais da tradição literária brasileira, mas que infelizmente não andavam sendo tão explorados no cinema até que o laureado “O Lobo Atrás da Porta” abrisse caminho como uma pedra fundamental para a retomada do gênero.

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Mas “Para Minha Amada Morta” consegue se destacar na seara, com direção refinadíssima, extremamente ligada ao roteiro escrito pelo próprio diretor, e pela fotografia de Pablo Baião, fazendo a investigação do protagonista através de antigas fitas VHS de sua falecida esposa uma saborosa metalinguagem com a própria arte de fazer cinema. Cada fita e cada foto começam a ser refletidas na espiral de loucura na melhor interpretação da carreira de Fernando Alves Pinto, intensamente mergulhado num personagem obscuro e perdido cuja construção minimalista daria orgulho a escritores do naipe de Rubem Fonseca ou Luiz Alfredo Garcia-Roza. A imagem ideal de sua esposa morta sempre refletida em seus hábitos (como passar a roupa da mulher ou limpar seus sapatos), em seus olhos (num dos enquadramentos mais fenomenais dos últimos anos), ou mesmo nos outros é um fardo pesado demais. Fardo que utilizará para desmascarar as mazelas da tradicional família padrão brasileira através dos evangélicos de quem se aproxima. E o roteiro não escolhe soluções ou desfechos fáceis, preferindo costurar relações fora do lugar comum e retribuir auto-castigos e purgatórios em vida, o que é muito pior do que qualquer morte, dando múltiplos sentidos a cada palavra do título: “Para Minha Amada Morta”. Desde já franco favorito a abocanhar prêmios da 39ª Mostra de SP, merecidamente um dos melhores do ano.

Vencedor no Festival de Brasília 2015 dos prêmios de Melhor Direção, Prêmio Abraccine, melhor atriz coadjuvante para a promissora Giuly Biancato (do curta também de Aly “Tarântula”), melhor ator coadjuvante para o ótimo Lourinelson Vladimir, fotografia, direção de arte e montagem.

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39ª Mostra de São Paulo 2015 – Mostra Competitiva Nacional

Para Minha Amada Morta (idem)

Brasil, 2015. 105 min

De Aly Muritiba

Com Fernando Alves Pinto, Giuly Biancato, Lourinelson Vladimir

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5