Para o Outro Lado

por

26 de novembro de 2015

O cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa (apesar do sobrenome ilustre, não tem qualquer parentesco com Akira Kurosawa), tece em “Para o Outro Lado” uma peculiar interpretação sobre um dos maiores mistérios do universo ― a morte e o que nos espera após essa inevitabilidade. Se o leitor é do tipo que espera soluções óbvias para as questões levantadas pela narrativa, é melhor passar longe desse filme que preza, acima de qualquer entendimento cartesiano, a sensibilidade. Por meio das atuações dos protagonistas Eri Fukatsu e Tadanobu Asano, “Para o Outro Lado” retrata a morte com profundo otimismo, sem que para isso seja necessário prescindir do mistério inerente a essa etapa da existência. Sendo assim, é possível contemplar na tela uma versão do fim que, nem que seja lá no fundo, todos gostariam que fosse válida. Para Kiyoshi Kurosawa, nesse filme que impressiona pela ternura, a morte surge como uma viagem com possibilidade de retorno, perspectiva que não se contenta e vai além ― a morte aqui até se confunde com vida, na presença material, no corpo a corpo e, principalmente, no afeto.

Viúva há três anos, Mizuki (Eri Fukatsu) está em casa, sozinha, e não se surpreende quando se depara com o marido Yusuke (Tadanobu Asano), saído de um afogamento fatal no mar, mas ostentando uma aparência ilesa. A reação inesperada de Mizuki e o diálogo mantido pela dupla indicam que o espectador não está diante de uma obra convencional. Yusuke afirma que está mesmo morto, mas poupa nos detalhes que permitiram a sua ida até ali. Encantada com o retorno, Mizuki aceita partir em uma aventura com o amado, uma experiência única que a colocará em contato com pessoas que fizeram parte da trajetória pós-vida de Yusuke. Durante a projeção, o diretor faz bom proveito desse caráter onírico dos acontecimentos. Não por acaso, quando Mizuki é filmada despertando, sugere-se que certas passagens com a personagem estão cobertas com o véu nebuloso do sonho.

A direção de Kiyoshi Kurosawa, premiada na mais recente edição do Festival de Cannes, alinhada com a fotografia de uma luminosidade simbólica, é um deslumbre visual repleto de detalhes que despertam o desejo de revisão. Os corpos dos protagonistas, quando juntos em um abraço ou toque, unem-se como unha e carne em ações afetivas que demonstram perfeita simetria. Quanto a essa questão da abordagem da fronteira invisível que separa os mortos dos vivos, o filme segue um caminho plácido, mas com algumas intervenções sombrias. Nessa retratação do “outro lado”, para o bem da originalidade, o roteiro deixa de lado uma concepção mais corriqueira do enigma e não sucumbe a interpretações rasas que envolvem os planos material e espiritual, mantendo distância segura do clichê. Em “Para o Outro Lado”, nada está sujeito à compreensão única, unilateral. O espírito confunde-se com a carne, a morte com a vida. Um modo alternativo de existência que possibilita diversos momentos de incontestável vivacidade, como quando a viúva e o marido discutem e no trecho em que finalmente fazem amor.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5