Pegando Fogo

Filme promete incendiar o telão com muita pimenta, mas se esquece de colocar o sal

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10 de dezembro de 2015

Comida e cinema costumam ser uma ótima combinação. Basta colocar um mocinho e uma mocinha (que geralmente ficam juntos no final), adicionar uma xícara de obstáculos a serem superados pelos protagonistas, alguns coadjuvantes, uma colher de sopa de comédia, outra de drama, uma pitada de romance, muitos pratos de dar água na boca e voilà – está pronto o filme culinário. Só que há um porém: para que o filme seja tão agradável quanto as iguarias que passeiam pela tela, é necessário que haja um bom roteiro para a preparação dos ingredientes e um bom chef para comandar a cozinha. Nem sempre o resultado é tão satisfatório, principalmente quando a bancada está desorganizada e tem tantos ingredientes espalhados que fica confuso na hora de pôr tudo nas panelas e finalizar o prato. É o caso de “Pegando Fogo”, novo filme dirigido por John Wells (“Álbum de Família”) e escrito por Steven Knight (“A 100 Passos de Um Sonho”).

O longa acompanha o renascimento de Adam Jones (Bradley Cooper) como grande chef de cozinha após um período de recuperação de drogas e bebidas. Adam, que perdeu seu restaurante duas estrelas (no guia Michelin) em Paris, decide ir para Londres para tentar conseguir as almejadas três estrelas em um novo restaurante com sua antiga equipe reunida. Neste percurso ascendente, pendências e desavenças do passado vem à tona, uma velha rixa reascende e um novo romance bate à porte de Adam de forma inesperada. Como em “O Lado Bom da Vida” (2012), Cooper interpreta um homem em fase de redenção, que faz uma rápida visita ao fundo do poço pela segunda vez durante a trama, mas que logo se recupera para uma reviravolta que levará ao final feliz, essencial para este tipo de filme tão amado pelos norte-americanos.

A intenção de “Burnt” (no original) em mostrar o ambiente da cozinha profissional com toda a pressão diária e a competição feroz que existe no meio é louvável, mas se perde no meio do caminho ao mesclar elementos demais sem focar em nenhum. Há o histórico com drogas de Adam (que seria interessante para o enredo se bem desenvolvido), o lento romance com Helene (Sienna Miller), uma ex-namorada (Alicia Vikander) que surge quase sem função, a rivalidade com Reece (Matthew Rhys) que vai amornando ao longo da trama, a busca incansável pela perfeição e pela terceira estrela Michelin, além do mal aproveitamento do talento, em papéis muito pequenos, de Emma Thompson e Omar Sy, que até hoje não conseguiu se destacar em Hollywood depois do enorme sucesso de “Intocáveis” (2011). Na via positiva, as explosões temperamentais de Adam na cozinha parecem as do renomado chef britânico Gordom Ramsey no reality show “Hell’s Kitchen” e seus movimentos lembram muito os de um chef de cozinha de verdade. John Wells bem que tentou harmonizar a grande variedade de temperos em sua criação, mas não obteve nada além de um resultado bastante mediano com seu feel good movie culinário. “Pegando Fogo” consegue fazer apenas o público sair com o estômago roncando da sala escura, mas sem brilho nos olhos, como poderia.

 

Pegando Fogo (Burnt)

EUA – 2015. 101 minutos.

Direção: John Wells

Com: Bradley Cooper, Daniel Brühl, Sienna Miller, Emma Thompson, Omar Sy, Matthew Rhys, Alicia Vikander e Uma Thurman.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3