Phoenix

Das cinzas da 2ªGM, o réquiem de um pássaro ferido que voa novamente

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16 de julho de 2015

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O que já não foi dito nos cinemas sobre a 2ª Guerra Mundial? Ou mesmo em críticas… Esta não é a primeira vez em que inicio um texto propositalmente com esta indagação. Pela psicanálise, apenas através da repetição podemos exorcizar certos traumas, quanto maiores forem… E é precisamente por isso que algumas obras do gênero no cinema às vezes são as mais inovadoras e inusitadas, pela necessidade de romper com o óbvio para expiar feridas fantasmas. Ano passado teve o delicado e belissimamente fotografado “Ida”, ganhador do Oscar 2015 de filme estrangeiro. Mas também ressoou o rigor narrativo e dureza de sentimentos do diretor Christian Petzold em uma simples e complexa trapaça ao mesmo tempo: sobrevivente do Holocausto reconstrói rosto desfigurado para tentar regressar às pessoas que mais amou, mesmo que morta por dentro e sem saber mais quem é, e o que pode interessar aos que ficaram para trás talvez seja mais a sua sombra do que sua presença física de fato.

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Além de realizar um elegante filme de época, o diretor Petzold sabe como ninguém lidar com as emoções mais perturbadas sem ser piegas ou apelar para o melodrama. Tudo é contido e recatado, mas não por isso menos doloroso… E o espectador pode se deliciar com as descobertas do que é mentir para si mesmo. O mote principal nada mais é do que uma metáfora da herança de tristeza e obliteração de identidade que a 2ª GM deixou, pois ao mesmo tempo que fosse necessário se agarrar às antigas tradições para não enlouquecer na perdição, os sobreviventes também tiveram de se deparar com a destruição de tudo o que conheciam por si para ter de construir algo novo, intocado por uma peste negra de horror. E Petzold constrói isso visualmente através de paredes destruídas, concreto e tijolos nas ruas, becos escuros onde soldados assanhados podem ser perigosos no pós-guerra para qualquer mulher que passar, e tantas outras tiveram de dar o corpo e a honra para resistir, em clubes privados onde uma trégua era feita pela sublimação passageira… É num destes clubes que a protagonista dada como morta encontra seu ‘viúvo’, outrora ambos músicos renomados, agora um garçom que ganha a vida com pequenos esquemas. E que esquema maior do que se aliar a uma desconhecida, sem reconhecer tratar-se de sua ‘falecida’ esposa, para juntos tentarem obter a herança da ‘falecida’, ou seja, a própria.

O nome Phoenix advém de recuperar sua identidade, num filme noir de escuridão dos tempos e re-iluminação da alma através do mergulho nos seus piores medos. E os arquétipos de construção e desenvolvimento de personagens são um show à parte, uma vez que o elenco costuma trabalhar com o diretor, como no filme anterior deles em conjunto, o igualmente genial “Barbara”. A diva Nina Hoss, mais uma vez firme protagonista feminina, presta sensibilidade ao vazio de sua personagem destruída, de modo a agregar pequenos gestos e modulações de expressão e voz que a fazem crescer a cada nova destruição, até se libertar em duas das cenas mais belas do ano, a da chegada de trem ao final e quando enfim solta seus dotes como cantora. Enquanto que Ronald Zehrfeld, ascendente galã alemão, prova estirpe à la George Clooney, guia o espectador na excelente química do casal que se alimenta do sofrimento, pois é a única coisa que a guerra lhes ensinou. De um lirismo ímpar.

 

  • PHOENIX  ein Film von CHRISTIAN PETZOLD mit  NINA HOSS und RONALD ZEHRFELD.Die Geschichte einer Holocaust Ueberlebenden die mit neuer Intentität herausfinden will ob ihr Mann sie verraten hat.Story on a woman who has survived the Holocaust. Presumedly dead, she returns home under a new identity to find out if her husband betrayed herPhoenix. Il racontera l

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5