Quando meus Pais não Estão em Casa

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29 de maio de 2015

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Hoje em dia os filmes em três dimensões estão muito em voga. Coloca-se óculos 3D e se vê as imagens saltarem da tela. Mas esta expressão não tem apenas esse significado. Quando um filme ganha tridimensionalidade, num contexto de conteúdo, isso quer dizer que alcança camadas mais profundas, os personagens não são rasos/bidimensionais, e a fotografia e direção realmente contam uma história com os cenários, locações, ângulos e desenvolvimento. Não apenas no que é dito, e sim no não-dito. Visualmente e através da reflexão. Personagens bidimensionais são aqueles que apenas resguardam na história dois lados, por exemplo, sendo pai de família e professor. Isto é um binômio. Ele existe em dois mundos, o de casa e o da escola. Já tridimensionais, agregam perspectiva: se ele é um bom pai/marido, se trai a esposa, se acumula trabalhos e está roubando a escola, ou se candidata a algum cargo público… E o filme passeará por mais locações, por exemplo, um prostíbulo, ou pela Câmara Legislativa…

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Eis que o soberbo “Quando meus Pais não estão em Casa” (“Ilo Ilo” no original, 2013, trabalho de estreia de Anthony Chen), talvez depois de “Mad Max – Estrada da Fúria”, seja o filme mais tridimensional em cartaz no momento, porém não no sentido literal do 3D. Com este você precisará de outro tipo de óculos: o sociológico, pois já começa expandindo os horizontes da história que se passa na economia ascendente da Cingapura, com mãe de classe média-alta que, sem saber sobre a perda do emprego e das economias pelo marido, contrata como babá uma imigrante de mão-de-obra filipina, mas que poderia ser nordestina para o sudeste brasileiro, ou mexicana para os americanos, ou mesmo no meio do sistema de castas indiano… Esse tom de moral universal é contado não só pelas camadas ditas, como pelas não-ditas, na soberba filmagem urbana entre prédios em planos abertos, a planos fechados em portarias e entradas de serviço, grades, janelas e escadas físicas e psicológicas. Talvez o espectador comum pense: ‘mas eu não conseguiria ver isso por conta própria se o crítico não estivesse me apontando’… Porém o filme é tão rico neste quesito que se torna impossível não perceber ao menos algum traço ou enquadramento metafórico, mesmo para o olhar mais acomodado. E, por favor, não se subentenda aqui ‘acomodado’ como uma culpa voluntária, é cultural, desacostumada pelos blockbusters que explodem tudo cegamente, com raras exceções, como o supracitado “Mad Max”.

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Decerto, o cinema asiático está lidando magistralmente com os temas familiares mais intimistas, com viés sociológico embutido, principalmente na abordagem de jovens, como o mestre da direção de crianças Hirokazu Koreeda e o último trabalho ovacionado em Cannes “O Segredo das Águas” da lírica Naomi Kawase. “Quando meus Pais Não estão em casa” apenas vem a coroar esta seara, com inovações de enquadramentos, como na filmagem pela câmera de segurança da mercearia onde o garoto rouba artigos da loja, ou quando o pai é demitido e a luz externa à casa ilumina a grade da janela a refletir nele, como se estivesse aprisionado. Sem falar nas quebras propositais de ritmo entre o choque intermitente, como um atropelamento acidental ou quando a babá presencia o suicídio de um estranho, entremeados pelo lúdico de cenas como a do telhado do prédio com o garoto, ou o primeiro banho que ele recebe da babá. Tudo isso faz deste debut de Anthony Chen, premiado com o Camera D’Or em Cannes 2013, muito promissor quanto às obras que virão.

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5