Quarteto Fantástico

Quarteto Bombástico

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09 de agosto de 2015

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Olha a bomba… Cuidado! Mas não, isto não é uma descrição de cenas de ação cheias de (d)efeitos especiais que os filmes de super heróis têm de sobra em orçamentos e bilheterias megalômanas. E sim o conteúdo de mais uma malfadada adaptação das HQs de um dos grupos mais clássicos da Marvel, até hoje inacreditavelmente tão mal vertidos em tela grande: “O Quarteto Fantástico”. Para ser sincero, a melhor adaptação desta família com super poderes para os cinemas se deu com um filme que sequer é deles, e sim uma família similar, homenageando a criação de Stan Lee de 1961, que foi “Os Incríveis” da Disney/Pixar. Engraçado como as referências funcionaram para criar uma obra que bebe muito mais na fonte do Quarteto do que todos os quatro longas-metragens com os personagens originais. O primeiro de 1994, total trash. E os três seguintes pelo poderoso estúdio Fox, o mesmo que produz a franquia X-men, o qual infelizmente não soube reproduzir bem do que se trata de verdade a simbologia da primeira equipe de heróis poderosos da história a ser uma família, cheia de conflitos normais do dia-a-dia, inclusive traições do casal principal com….o vilão! Sim. Há tutano ali para muitas histórias maduras sobre relacionamentos, porém nunca exploradas pelos dois filmes com o elenco capitaneado por Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans (antes de ser escalado definitivamente como o sucesso Capitão América) e o sumido Michael Chiklis respectivamente como o Sr. Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e o Coisa.

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Agora foi a chance de resgate da Fox com o reboot (quando recomeçam uma história de maneira diferente com elenco novo, como se passou recentemente com “O Homem Aranha”). Quem diria que a ‘coisa’ só iria piorar, perdão o trocadilho. Enquanto os dois outros filmes foram galhofa pura, como se história sobre família disfuncional implicasse necessariamente ser uma comédia pastelão para a família, este novo até se leva a sério. Até demais. Baseado não na história principal do Quarteto e sim na versão alternativa que os próprios quadrinhos rebootaram de seus carros-chefes. Enfocando mais a parte tecnológica sobre a evolução das espécies e gênese da vida nos planetas antes inóspitos dos sistemas solares, além do uso militar pelo governo dos poderes do Quarteto, temas sempre existentes desde o texto original, aqui a narrativa ganhou ares sóbrios e sombrios, porém sem carisma, como se incorporasse a mesma frieza das máquinas que retrata. Depois de um início caloroso até ligeiramente promissor com a infância dos personagens, aludindo à magia com crianças que Spielberg sabe usar tão sabiamente, e que J.J. Abrams homenageou à perfeição em “Super 8”, o resto do roteiro parece ora lento em desenvolver a história e ora apressado em fundir a química entre os heróis, isolando os certos na hora errada, ou trabalhando os errados nos momentos que seriam ideias. O elenco composto pelo maravilhoso Miles Teller (do oscarizado “Whiplash”), Kate Mara (de “House of Cards”) e o desperdiçadíssimo Jamie Bell (de “Billy Elliot”) a princípio não teria sido tão mal escalado, se o desenvolvimento de cada um não fosse tão anticlimático que faz o espectador deixar de se importar com seus ‘destinos’; perdão mais um trocadilho. Isto sem falar no próprio vilão, o infame Doutor Destino, aqui tratado como mero coadjuvante sem sal que desaparece da tela por quase uma hora de filme e só volta no final com óbvias ameaças de destruição do mundo e resoluções canhestras e apressadas.

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O diretor, Josh Trank, que fez o sucesso indie de sci-fi “Poder Sem Limites”, até se esforça. Percebe-se em algumas cenas e referências, como às máquinas versus o primitivismo de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”; a deformação escatológica do corpo pela ciência tão bem trabalhada em “A Mosca”; ou o uso do ser humano como armas letais pelo governo como em “Nascido para Matar”. Porém, tudo resvala no vazio, pela péssima orquestração dos fatores sonolentos e indiferentes, o que prova que nem toda a erudição gera necessariamente uma composição lírica. Tem de ter magia. Encanto. Eis que mesmo um ótimo ator como Miles Teller, até bem caracterizado como Sr. Fantástico, pode estar lutando contracorrente e sozinho num ringue superpovoado e superficial ao mesmo tempo. Sem falar que se começa a catar piolho onde nem precisaríamos criticar, como a ridícula peruca de Kate Mara como Mulher Invisível, uma vez que em raras cenas ela aparece com o cabelo normal pintado de loiro, só não tão loiro quanto parece que os produtores queriam. A conta das reações inflamadas internacionais o diretor Josh Trank até se defendeu culpando a montagem da Fox, e fãs revoltados exigiram que os direitos autorais dos heróis voltassem da Fox para a própria Marvel, que só passou a ter Estúdios próprios de cinema posteriormente à compra da Sony e Fox de vários heróis como Homem-Aranha e X-men (a única franquia que continua dando certo), respectivamente. Mas de quem é a culpa, afinal? Cada um não deveria se responsabilizar pelo produto que põe no mercado? Inclusive os fãs por darem bilheteria que os fazem continuar as sequências de obras sofríveis nas mãos de quem não entende.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 1