Quase Samba

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07 de julho de 2015

 

É realmente significativa a presença da mulher que permanece notoriamente grávida durante toda a película, peculiaridade que deixa perfeitamente subentendida a relação da mulher com a tão abrangente origem. Mulher, resistente à dor desde o dia de seu nascimento. “Quase Samba” é um filme sobre as vicissitudes da vida de uma cantora dividida entre dois perigosos amores. De quem é o filho que ela carrega no ventre? Pergunta que perde a importância diante da questão da independência da futura mãe que diz ser o filho em processo de geração exclusivamente seu. Se um dia ele é arrebatado de seus braços, é por culpa de um pecado unicamente masculino, dor gerada no útero do mundo. Nesse quadro de primazia estrogênica, nada melhor que um travesti, mulher por necessidade, para assumir o papel de conselheiro e diligente guardião, talvez seja por isso que seu olhar, constantemente sobre seus protegidos, está durante quase todo o tempo em destaque, adornado com cílios coloridos, extravagantes. Em oposição ao travesti de “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) de Pedro Almodóvar, pai biológico ausente, aqui Shirley (Cadu Fávero) cumpre o papel de pai de criação, sempre presente e ciente da importância da sensibilidade.  Um aspecto de “Quase Samba” que incomoda deve ser citado – percebe-se certa ingenuidade no trato das questões que se pretende abarcar.

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É Teresa (Mariene de Castro – mais eficiente nas performances musicais) o nome da grávida que protagoniza “Quase Samba”, cantora que se enche de brilho, o resplandecer áureo que estabelece contraste com o cotidiano opaco, para novamente propagar sua voz na noite por meio das ondas radiofônicas. Samba dos melhores, desprovido do advérbio “quase”. Como o filme apropria-se do furor dos brasileiros nas últimas manifestações, o espectador irá com os personagens escutar o noticiário que registra a tardia retomada de consciência; apenas um adendo, uma digressão já que não interfere na narrativa. Um hacker (João Baldasserine) e um miliciano (Otto), dois sujeitos que vivem à margem da legalidade, são os homens que com Teresa compõem o triângulo amoroso. Com o primeiro, Teresa tem a oportunidade de incorrer no idílio de beijos, de uma rosa vermelha e da câmera lenta. Com o segundo, é o prazer à flor da pele que tem prioridade, relação marcada pelo sexo descompromissado no quarto de hotel. Ao fim do primeiro longa de Ricardo Targino, a reverenciada mulher não se permite sair de cena após o confronto que o espectador, facilmente, acaba por prever; obstinada, deixa indeléveis seus rastros.

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Festival do Rio 2013 – Première Brasil / Competição

Quase Samba

Brasil, 2013; 90 minutos.

Direção: Ricardo Targino

Com: Mariene de Castro, Cadu Fávero, João Baldasserine, Otto, Leandro Firmino

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3