Que Mal Eu Fiz a Deus?

Filme discute questão do racismo e da miscigenação na França com humor e descontração

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13 de junho de 2015

Aceitar o diferente não é fácil, principalmente para pessoas de gerações anteriores, uma vez que as mudanças do mundo contemporâneo ainda conseguem chocá-las. O casamento miscigenado, apesar de já ocorrer há muitos anos, ainda é um tabu. Na França, onde 20% das uniões envolvem casais de raças e nacionalidades diferentes, o preconceito continua grande, e é esta discussão que Philippe de Chauveron levanta em seu novo filme “Que Mal Eu Fiz a Deus?”. Na trama, o casal Claude e Marie Verneuil (os ótimos Christian Clavier e Chantal Lauby) tem três filhas que decidiram se casar com homens filhos de imigrantes e de religiões distintas – um judeu, um árabe e um chinês. Católicos conservadores e preconceituosos, os Verneuil não ficam nada felizes com a situação e se sentem esperançosos quando a quarta filha anuncia o seu casamento com um católico. Mal sabem eles a surpresa que os aguarda com seu quarto genro.

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Charles Koffi (o estreante Noom Diawara), noivo da caçula Laure (a bela e também estreante nas telonas Elodie Fontan), é negro, e isso causa uma crise na família Verneuil, inclusive com os três genros. A família Koffi vem da África para o casamento e a surpresa é que o patriarca André (Pascal N’Zonzi) é tão agressivo, teimoso e racista quanto Claude. Logo que se conhecem, ambos protagonizam um divertido confronto patriarcal tipicamente masculino, enquanto as matriarcas Madeleine (Salimata Kamate) e Marie se tornam boas amigas e tentam apaziguar os ânimos.

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Através de todos os atritos que ocorrem durante “Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieux ?” (no original), Chauveron toca no delicado ponto de que todo ser humano tem preconceito, seja ele qual for e no grau que for. O roteiro, escrito pelo próprio Chauveron e Guy Laurent, trata de temas polêmicos de maneira leve e divertida, sem vitimizar ou rebaixar nenhum personagem. Ele brinca com estereótipos e põe em debate o conflito de gerações, muito bem representado na figura dos pais, dos filhos e dos genros. Há um momento em que o racismo é posto abaixo, quando Marie, numa das sessões com o psiquiatra, se dá conta de que sua intolerância pode ter origem no medo que sentia de preás (uma espécie de rato) quando criança. Tudo isso para mostrar que é o medo do desconhecido a origem do racismo, da xenofobia e de todo tipo de preconceito. Outra cena-chave é quando os três genros de Claude cantam em coro a Marseillaise no meio da festa de Natal e emocionam o sogro, que finalmente percebe que eles são tão franceses quanto ele e sua família.

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Muito bem aceito na França, “Que Mal Eu Fiz a Deus?” é um filme que divide opiniões e que utiliza o humor de forma inteligente, beirando o politicamente incorreto, para tratar de um assunto polêmico e atual. Com o final feliz clichê, o longa se encerra sob uma mensagem de tolerância, que é o seu intuito. As atuações, majoritária e propositalmente caricatas, fazem da comédia de Chauveron um excelente exemplar do gênero que faz rir do início ao fim, além de levar à reflexão acerca do preconceito e do racismo. A cereja do bolo seria uma quinta filha se casando com outra mulher – aumentaria ainda mais o leque de discussões. Fica a sugestão para projetos futuros.

 

Festival Varilux de Cinema Francês 2015

Que Mal Eu Fiz a Deus? (Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieux ?)

França – 2014. 97 minutos.

Direção: Philippe de Chauveron

Com: Christian Clavier, Chantal Lauby, Elodie Fontan, Noom Diawara, Salimata Kamate, Pascal N’Zonzi, Medi Sadoun, Frédéric Chau, Ary Abittan, Emilie Caen, Frédérique Bel, Julia Piaton e Tatiana Rojo.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5