Relacionamento à Francesa

Comédia politicamente incorreta que dá a cara a tapa e ri sem vergonha em muito humor negro

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13 de agosto de 2015

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Comédias sobre famílias cujos pais se separam já foram feitas aos borgotões. Por isso que nos perdoe o politicamente correto, mas é raro se ver humor negro tão bem empregado como na simples trama de “Relacionamento à Francesa” (“Papa ou Maman” no original): casal bem sucedido decide separar amigavelmente até que a divisão da guarda de seus filhos põe em risco a tão sonhada promoção de ambos, fazendo com que disputem agora para perder a guarda das crianças. E a partir daí há de se dividir a maneira de ver o filme, num lado se tranformando em comédia non sense doa a quem doer, pelo mero objetivo de entreter, ou por outro lado se enxergar uma crônica da atualidade onde os adultos cada vez mais jovens focam no trabalho, demoram a ter filhos que serão criados por babás, e pulam algumas fases de amadurecimento importantes em ser crianças de novo. Segunda vertente esta que já comprova superioridade dos franceses em fazer uma ode ao absurdo em comparação com as comédias escatológicas dos americanos.

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Martin Bourboulon dirige confiante a boa dupla de protagonistas formada por Marina Foïs e Laurent Lafitte, mesmo que os atores mirins a encarnar os filhos sejam inexpressivos. O que realmente importa aqui é a cáustica iniciativa do filme em abrir mão dos bons costumes, botando em risco a integridade física de todos os envolvidos, como raras vezes no cinema, há de exemplo  o drama “A Guerra dos Roses”, aqui revisitado como comédia ácida. E dá a cara a tapa com o que todos sentem às vezes e ninguém tem coragem de dizer: pessoas têm filhos sem pensar, ou sem amor, ou esquecem o amor em meio ao cotidiano, ou mesmo perdem o foco de suas escolhas de vida e se arrependem de algumas decisões. Trabalho pode atrapalhar filhos. Filhos podem atrapalhar o trabalho. E o absurdo começa a imperar perante a narrativa quando joga tudo isso no ventilador com guilty pleasure e gargalhadas sem vergonha.

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Não que a comédia deixe de evitar alguns lugares comuns de fácil aceitação de público, como um lento início clichê de modelo da família perfeita já superado, montagens acompanhadas de trilhas sonoras melosas, e um final comportadinho para expiar todos os pecados que vêm antes muito bem resolvidos por si só, dispensando explicação em miúdos. O que importa aqui é a cara de pau sem medo de ser feliz. Que a patrulha do comportamento não atire pedra nem no filme nem nesta crítica.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4