Relatos Selvagens

Corrosivo e divertido

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16 de outubro de 2014

O que uma comédia precisa ter para agradar o público? Ser engraçada pode ser a resposta mais óbvia, mas nem sempre a gargalhada vai atrair você para a poltrona. É o que mostram inúmeros exemplos que apelam para o riso fácil, atraem milhões de espectadores, mas não necessariamente você. Coprodução entre Argentina e Espanha, Relatos Selvagens tem os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar na produção, bateu recordes, registra números históricos e é o candidato ao Oscar 2015 dos hermanos. Mais do que isso, ele pode, simplesmente, ser a resposta para a pergunta lá do início: ser divertida, bem feita e fazer refletir.

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O cartão de visitas vem na forma de um conto rápido, dentro de um (oportuno) avião, de final louco que abre alas para os créditos iniciais. Neles, percebe-se logo uma curiosa e bem humorada preocupação em passar uma “personalidade” do que será visto dali por diante, pois para cada nome (artístico ou técnico), um novo “personagem-bicho” é mostrado. E a conexão fica clara, por exemplo, entre o profissional de arte com uma girafa, da fotografia com a coruja, do som com as hienas, produtores com leões, e por fim o diretor e roteirista com a raposa, um animal de visão e astuto.

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Com apenas três longas na carreira, a experiência de escrever para a TV parece refletir a opção pelo formato de seis mini-histórias, feita pelo cineasta Damián Szifron. Pequenas e envolventes do início ao fim, apenas uma (a do atropelamento) quebra o ritmo, ao investir demais na denúncia sobre os valores da sociedade. Deixando transparecer suas influências, é possível sentir ecos de Encurralado (1971) e Carrie, a Estranha (1976), vistos em contos distintos, mas igualmente bons. O filme de Spielberg está no violento conto da estrada, com direito a uma hilária cena digna do personagem Coiote, criado por Chuck Jones no desenho animado Papa-Léguas (também da Warner), conhecido como Beep-Beep (1949). Já o clássico de Brian De Palma está no conto final, absurdamente genial sobre os relacionamentos amorosos, durante uma apoteótica cerimônia de casamento, protagonizada pela (ótima) Érica Rivas.

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Para a turma ligada no ator Ricardo Darín, sua história tem algo de Um Dia de Fúria (1993), mas o mais emblemático está no uso da música “Aire Libre”, usada em um popular programa de TV dos anos 1970, que dava conselhos para as mães nos cuidados com as crianças. Um achado, quando se leva em conta um filme sobre as neuras dos adultos. Falando em música, ela é do oscarizado Gustavo Santaolalla (Babel), responsável pela ótima trilha original e por inserir hits numa sequência de extrema violência, como “Lady, Lady, Lady”, clássico dor de cotovelo do cantor Joe Esposito, ouvido no sucesso Flashdance (1983).

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Assim, uma coisa é certa: prepare-se para ver histórias carregadas de um humor corrosivo, toques de suspense, e diante de situações que já podem ter sido vividas, de alguma forma, por muita gente do seu círculo de amizades ou até mesmo por você. Com uma câmera muito interessante, Szifrón pode te colocar – brevemente – dentro de um bagageiro de avião, da mala de um carro, no fundo de um buraco de explosivos, para em outro momento perseguir o protagonista, em um ângulo fora dos padrões. E assim, o espectador vai “cruzar”, ou ultrapassar, os limites da sanidade humana, tendo como mola propulsora o desejo de vingança. É selvagem sim, mas acima de tudo é muito divertido.

relatos-selvagens38ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo
Relatos Selvagens (2h2min)
Direção: Damián Szifrón
Elenco: Ricardo Darín, Erica Rivas, Oscar Martínez, Julieta Zylberberg, Leonardo Sbaraglia, Darío Grandinetti e Rita Cortese.

Programação na Mostra SP
Dia 16/10 17:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1
Dia 17/10 23:45 – CINESESC
Dia 19/10 17:40 – RESERVA CULTURAL 1

 

Avaliação Roberto Cunha

Nota 5