Retorno à Ítaca

A Odisseia de retorno dos cubanos à Pátria Amada, num acerto de contas do comunismo frente o capitalismo

por

12 de agosto de 2015

retorno_a_itaca2

Ítaca. A expressão se refere à terra natal do grande herói da mitologia grega Ulisses, cujas aventuras pós Guerra de Tróia para regressar à sua terra e mulher amada são descritas na famosa Odisseia de Homero. Portanto, em analogia, “Retorno à Ítaca” é um filme francês todo realizado em Cuba sobre um grupo de amigos de juventude que se reúne décadas depois, de um lado alguns deles tendo permanecido na controversa pátria amada comunista e, de outro, alguns tendo retornado a ela recentemente de exílio contra perseguição política. Jaz na diferença vivenciada por ambos os lados, de adversidades e superações das feridas de alma, as melhores catarses.

320489

O premiado cineasta francês Laurent Cantet já anda tematizando as feridas abertas de miscigenação imigratória na França há algum tempo, como no laureado em Cannes “Entre os Muros da Escola”, que versava a realidade estudantil de jovens de diferentes escalas sociais e etnias do mundo, típicos da sociedade francesa atual. Ele cruzou o oceano para abordar as Américas com “Em Direção ao Sul” no Haiti e dirigiu um dos segmentos de “Sete dias em Havana”, apaixonando-se, então, pelas polêmicas de Cuba. Foi assim que se deparou com o projeto de “Retorno à Ítaca”, adaptação livre de “La Novela de mi Vida” a quatro mão com ajuda do próprio autor cubano Leonardo Padura. Muito mais do que simplesmente um “Conta Comigo” ou “Clube dos Cinco” mais velhos e amargos, num ajuste de contas sobre os efeitos do tempo na amizade, ele dá um voo rasante na filosofia socióloga, sobre os êxitos e desastres da ideologia comunista ante a vitória capitalista do mundo, mesmo que às custas de uma derrocada moral de valores que se aplica aos dois lados. Aqueles que ficaram na terra desgarrada até hoje se humilham com baixa renda, ou excepcionalmente desistiram de seus sonhos e se entregaram à maracutaia, cujo abandono da ética recompensa com lucros ilegais. Enquanto os que se foram e regressaram podem até possuir segurança financeira, porém se tornaram ocos e desmotivados sem a paixão nata de sua pátria da qual foram privados.

filmes_10278_retorno12

Com quase todas as cenas reclusas pela câmera num mambembe, mas charmoso sobrado com vista para todos os telhados à beira-mar de Havana, ora em panorâmicas à distância ora em closes intimistas, a beleza natural e ao mesmo tempo a pobreza coletiva se encontram tão longe quanto perto, assim como um paradoxo entre prisão e liberdade, prática e teoria, texto e imagens do filme. Os personagens veem namorados brigarem na sacada do prédio ao lado; ouvem os vizinhos torcerem pelo jogo de futebol e mesmo matarem um porco escandaloso para comemorar com um humilde churrasco de pobre, tudo do ponto de vista enclausurado de seu sobrado. Mas nada permite com que os protagonistas escapem de seus próprios olhares, vozes e julgamentos, capitaneados pela personagem-diva Tania (Isabel Campos). Com extrema presença cênica até mesmo quando em silêncio, cada revelação é dolorosamente intensificada em seu sabor pela vida mesmo quando não se tem nada. Seu sorriso amargo se equivale ao que Omara Portuondo era para o grupo Buena Vista Social Club (grupo musical e filme homônimo que também mapeiam esta ambivalência de Cuba). O resto do elenco se pendura no triângulo formado por Tania, Rafa (Fernando Hechevarría) e Amadeo (o excelente Nestor Jiminez), este sendo o pivô de todas as discussões por ser o amigo que regressou da França. A relevância e timing do filme são tão grandes que o cineasta poderia ter trabalhado melhor os outros personagens, principalmente Eddy, cuja ideia é ótima, porém a execução deixa a desejar, ligeiramente canastra na pele de Jorge Perugorría. E o final cheio de revelações que acabam se tornando um pouco previsíveis também poderia ter sido preterido pelos silêncios muito mais reveladores predominantes até certo ponto. Ainda assim, imperdível obra ímpar.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5