Rua Secreta

por

14 de setembro de 2015

timthumb

Alguns filmes até acumulam boas ideias, porém se atropelam na intenção. Referências de luxo se não utilizadas com pulso firme e propósito claro podem se tornar difusas. Caso sejam empregadas como preciosismos vazios então…, viram até ofensa ao gênero homenageado. Malgrado o esforço, este acabou sendo o exemplo de “Rua Secreta” (“Shuiyin Jie”, 2014 – estréia da produtora Vivian Qu na autoralidade de direção e roteiro), sobre um jovem chinês que tenta vários pequenos bicos em trabalhos diversos na sufocante economia hierárquica de seu país, até que, no cargo de mapeador de ruas, esbarra em bela jovem que o atrai para um mundo de espionagem industrial e política, graças a uma rua que não existe em mapa algum.

Rua-Secreta-Shuiyin-jie1

Alardeado como um exemplo de filme realizado por cineasta com influências de Hitchcock, este crítico que vos escreve é obrigado a humildemente contrariar esta premissa demonstrando que de boas intenções o inferno está cheio. A primeira cena tenta aludir à metalinguagem do cinema com sobreposição de perspectivas através da lente de uma câmera dentro do filme (a qual o protagonista utiliza para mapear as ruas em seu trabalho), alterando a realidade apreendida, o que vem de fato de clássicos como “Janela Indiscreta” de Hitchcock. E leva a equívocos de interpretação quanto ao caráter da femme fatale por quem o protagonista se apaixona, bem no estilo noir, à la “Um Corpo que Cai” do mestre supracitado do suspense. Mas o verdadeiro filme a que “Rua Secreta” alude é sim “Blow up – Depois Daquele Beijo” do gênio italiano Michelangelo Antonioni, a mostrar o quão insólita é a realidade dependendo do ponto de vista, onde, no original, um fotógrafo acredita ter captado em sua câmera um assassinato, porém as coisas podem não ser o que aparentam dependendo a perspectiva do fotógrafo.
maxresdefault (2)

Até aí tudo estaria bem encaminhado, ao menos de forma visual em ângulos e enquadramentos inspirados em clássicos, não fosse o roteiro da cineasta não levar a lugar algum, assim como a rua desaparecida do mapa que tanto tormenta seu protagonista. As conexões e reviravoltas com espionagem parecem forçadas, como se tentasse encaixar uma crítica ao contexto político de seu país, já que a o crescimento econômico numa superpopulação como a da China de fato leva a dados conflituosos ou omissos de injustiças sociais, como o título até alude. Porém ainda o faz com desníveis de ritmo, ora se pretendendo um romance, ora um suspense, ora um drama que jamais se encaixam, inclusive culpa da montagem preguiçosa e difusa. Esta é a diferença entre usar referências como mera cópia ou como homenagem, e aqui fica apenas na pretensão. Pena, pois o arcabouço usado como inspiração era louvável para gerar frutos melhores, talvez quando a cineasta alcançar maior maturidade em assumir tanto direção quanto roteiro, pois há de se haver equilíbrio entre imagem e conteúdo.

 

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 1