Sabor da Vida

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03 de dezembro de 2015

A câmera de cinema, quando manuseada pela sensibilidade mística de Naomi Kawase, torna-se capaz de apreender e reproduzir o que vai além do óbvio, da concretude que distrai o olhar. De fato, Kawase é uma cineasta com dom de poucos ― as imagens por ela produzidas são cheias de um significado que ultrapassa a matéria para revelar o potencial da transcendência. Crença absoluta no mistério real, mas que escapa no contexto de precisão típico do mundo tangível. No filme mais atual da diretora, “Sabor da Vida”, esse talento sublime é de início levemente camuflado por um formato de narrativa mais comercial, com linguagem mais acessível para um público não familiarizado com a obra da japonesa. No entanto, tal forma é também um belo ensejo para a aparição (com força total) dos elementos que vão fazer de “Sabor da Vida” um filme tipicamente kawasiano. O ponto de partida está em Tokue (Kirin Kiki), personagem que surgirá com o propósito de revigorar existências opacas pela melancolia.

Gerente de um pequeno estabelecimento que comercializa dorayakis, espécie de panqueca com recheio adocicado de feijão, Sentaro (Masatoshi Nagase) é um homem que vive dia após dia sem buscar por um prazer que justifique sua existência. Um grupinho sorridente de jovens estudantes, clientes da pequena lanchonete, deixa subentendida em suas conversas a discordância entre o ânimo delas e a apatia do homem que as serve. Porém, Wakana (Kyara Uchida), também estudante, é diferente das outras garotas, culpa do peso de responsabilidades que não condizem com sua juventude. Pendendo mais para o comedimento de Sentaro, os dois desenvolvem uma afinidade moderada, selada pelas panquecas deformadas e invendáveis, mas ainda apetitosas, que Sentaro entrega a Wakana como um ato de caridade. Para a dupla, Tokue aparece como que trazida pelo vento. Uma senhora que pede por emprego no comércio de dorayakis, nem que seja com remuneração abaixo do que Sentaro pode pagar. Sua presença é cercada de mistério, ela implora por ocupação como se quisesse fugir de algo que a incomoda. Por outro lado, esbanja uma alegria pacífica típica de alguém que faz questão de reconhecer a importância da vida. Após insistir pelo trabalho, Tokue faz Sentaro, literalmente, provar o seu valor ― especialista no preparo do doce de feijão, ela entrega um pote cheio da guloseima para seu futuro patrão experimentar e inevitavelmente aprovar. A partir de então, Sentaro passa a rechear as panquecas com o creme preparado por Tokue. O resultado é a inédita prosperidade na venda de dorayakis, com filas de consumidores.

O comportamento de Tokue é mensageiro do refinamento metafísico que domina a visão de mundo de Naomi Kawase. Tokue e sua filosofia de vida são tudo que faltam às existências aprisionadas de Sentaro e Wakana. Os dois, em convívio com ela, entrarão em contato com as aparentes marcas de um passado de dor que a senhora ainda carrega. Uma perseverança que serve como motivação para a jovem e, no caso do gerente da lojinha, reverte-se em cura de seus próprios ressentimentos. Na última parte do longa, Tokue é mais que uma aconselhadora trazida pelo vento: ela é o próprio vento, as folhas das árvores, a paisagem como um todo. Tokue é um estado de espírito que quebra as correntes da prisão de dias e noites sem cor, permitindo a Sentaro e Wakana uma emancipação muito especial, liberdade que promete livrá-los de um tipo perigoso de sofrimento ― aquele interiorizado e não compartilhado, disfarçado de quietude.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5