Saint Laurent

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20 de novembro de 2014

Em 2009, 1 ano após a morte do aclamado estilista franco-argelino Yves Saint Laurent, é lançado o documentário “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”, dirigido por Pierre Thoretton, onde seu parceiro de longa data Pierre Bergé narra a história do relacionamento entre os dois e mostra o processo do leilão das obras que adquiriram juntos ao longo da vida conjunta. 60 anos depois de Saint Laurent ganhar seu primeiro prêmio em um concurso patrocinado pelo International Wool Secretariat com a criação de um vestido para coquetel, 2014 foi o ano escolhido para homenagear o controverso designer de moda, como hoje seria chamado. No início do ano, estreou o longa “Yves Saint Laurent”, de Jalil Lespert, contando a história de Yves desde antes de começar a trabalhar para Dior até a sua morte sob a narração de Pierre Bergé. Indicado oficialmente pela França a Melhor Filme Estrangeiro para o Oscar 2015, o filme “Saint Laurent” foi exibido na competição do Festival de Cannes 2014 e chega agora aos cinemas. Sob a direção de Bertrand Bonello (“L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância” e “Tirésia”), o longa-metragem volta-se para os anos mais importantes em todos os setores da vida do estilista – 1965 a 1976.

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Logo de cara, somos apresentados a um atelier estéril, tão alvo e organizado quanto um hospital, cujo centro é Yves Saint Laurent, interpretado de modo excepcional pelo ator Gaspard Ulliel (“Eterno Amor” e “Hannibal – A Origem do Mal”). Pierre Bergé, parceiro de vida, de cama e de trabalho do estilista é vivido por Jérémie Renier, que brilhou em “My Way, O Mito da Música”, mas que aqui surge meio acromático. A atriz Léa Seydoux, que estrelou “Azul é a Cor Mais Quente”, aqui faz uma coadjuvante de luxo como em “O Grande Hotel Budapeste: como Loulou de la Falaise, uma das melhores amigas do modista, ela se destaca apenas nas primeiras cenas em que aparece. Aymeline Valade faz sua estreia nos telões como Betty Catroux, a modelo e outra das melhores amigas. Já Louis Garrel, mais conhecido por “Os Sonhadores”, entrega um charmoso e envolvente Jacques de Bascher, o amante especial de Saint Laurent, destacando-se em todas as suas aparições.

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Ao longo da projeção, são mostradas diversas coleções de roupas e desfiles, além do conturbado processo de criação e de peculiares reuniões com sócios americanos. No entanto, é nas cenas de boate e de hedonismo, seja por sexo ou uso de drogas (com pico em 1973), que residem as partes mais atraentes de “Saint Laurent”. O primeiro estilista a usar as minorias étnicas como modelos na passarela vivia entre a depressão, o isolamento e a busca pelo prazer e pela irresponsabilidade de ser jovem, que lhe foi negada tão cedo por ter que assumir a maison Dior. A audaciosa montagem de Fabrice Rouaud tem seus altos e baixos nesta produção. Enquanto nos anos 68/69/70/71 é realizado um interessante paralelo dos quatro anos lado a lado, dividindo a tela, entre o momento político da França e a evolução das coleções da marca YSL, em outros instantes do filme o mesmo modelo de montagem soa desnecessário, sem sentido para tal uso.

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Num projeto ambicioso bem diferente das produções antecessoras, Bonello decidiu por não seguir um modelo tradicional, como o biográfico e o documental, mas dar um tom mais glamoroso e ficcional a uma história real que já foi contada antes. O grande erro do diretor, que também co-escreveu o roteiro com Thomas Bidegain (“Ferrugem e Osso”), foi querer agrupar informações excessivas sem dar foco a nenhuma delas. Bonello priorizou a estética luxuosa em detrimento do conteúdo. A positiva falta de pudores com que o diretor trata da lascívia, das drogas e da depressão que fazem parte da vida de Saint Laurent nivela-se à falta de objetividade com que a trama é conduzida. Há pouco aprofundamento na relação de Saint Laurent com Pierre e Jacques e muitas mesclas temporais durante a fita, que confundem o espectador durante as intermináveis duas horas e meia de exibição. Ainda assim, “Saint Laurent” tem seu mérito por ser um filme que sai do lugar-comum quando o assunto é biografia, além de possuir uma fotografia incrível, dirigida por Josée Deshaies, uma direção de arte impecável de Katia Wyszkop, uma atrativa trilha sonora que passeia por diversos ritmos e ótimas atuações. Apesar dos problemas, o primeiro designer de moda vivo a possuir uma exposição individual no Museu Metropolitano de Arte desde 1983, sem dúvida, mereceu o alto investimento de Bonello para contar mais uma vez a sua trajetória.

 

Saint Laurent (Idem)

França – 2014. 150 minutos.

Direção: Bertrand Bonello

Com: Gaspard Ulliel, Jérémie Renier, Louis Garrel, Helmut Berger, Amira Casar, Léa Seydoux e Aymeline Valade.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3