Samba

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18 de junho de 2015

Os cineastas franceses Olivier Nakache e Eric Toledano já demonstraram que sabem como utilizar o formato bem comercial a favor da mensagem que querem transmitir. O método de operação dos diretores, que nada apresenta de revolucionário, abusa de um combustível identificável em qualquer parte do mundo ― o humor. Com nomes reconhecíveis desde a repercussão de “Os Intocáveis” (2011), filme que abusa da linguagem “lição de vida”, mas com recursos que acima de tudo oferecem divertimento, Nakache e Toledano suavizam o incômodo causado pelo toque em questões polêmicas. A tática é o apego imoderado a um sentimento de prazer: o riso formado nos lábios, para aliá-lo ao consumo de temas humanos, de grande relevância social. À dupla, não falta esperteza na arte da conquista de seu público, concedendo emoção por caminhos mais agradáveis que tortuosos.

Com roteiro baseado no livro homônimo de Delphine Coulin, o novo filme com a assinatura da dupla que chega aos cinemas brasileiros (exibido no Festival Varilux 2015 antes de debutar no circuito comercial) é a produção denominada “Samba”. Omar Sy, mais uma vez atuando sob o comando de Nakache e Toledano, encabeça o elenco ao lado de Charlotte Gainsbourg, nome de peso que adiciona mais alguns quilates ao filme. Em alusão inevitável ao antecedente “Os Intocáveis”, mais uma vez o enredo se apoia na delicada questão da imigração africana na França. No longa mais recente, Samba (Omar Sy) é um senegalês que, há dez anos em Paris, julga ser o momento apropriado de solicitar um visto de permanência. Em uma surpresa de tirar o chão sob os pés, nada sai como planejado e ele é detido sob a ameaça de deportação. É neste momento de dificuldade que Alice (Charlotte Gainsbourg), ocupando-se de um trabalho voluntário após o colapso nervoso sofrido na grande instituição onde é funcionária, cruza o caminho incerto de Samba.

A vitimização dos oprimidos não é um discurso que combina com o estilo dos cineastas. Em detrimento do vício alheio de minimização daquele que é alvo de uma série de preconceitos, o espectador consegue notar que os “privilegiados” são aqueles que verdadeiramente ocupam um lugar desfavorável no conforto de sua pátria ― foi assim com Philippe (François Cluzet), o infeliz aristocrata de “Os Intocáveis”, e assim é com Alice, sofrendo de neurose desenvolvida pela jornada de um profissionalismo prisional. O humor desta vez fica por conta da atração proibida que ela, na posição de voluntária que deve auxiliar o imigrante ilegal, sente por Samba. Independentemente dos experientes avisos de Manu (Izïa Higelin), orientadora de Alice nos serviços, a envolvente paixão pelo desconhecido é cada vez mais alimentada, um estímulo que insufla um pouco de vida na existência morna da mulher. Há também uma dose de “brasileirice” no longa, que ressona na trilha sonora com Gilberto Gil e Jorge Ben Jor, por meio de um personagem interpretado por Tahar Rahim. Figurão que encarna estereótipos abrasileirados (uma caricatura proposital) para tentar se safar das investidas do departamento de imigração. “Samba” é boa pedida para duas horas de diversão de qualidade; se no percurso rolar uma lágrima, são apenas ossos do ofício.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4