Segunda Chance

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03 de junho de 2015

Na direção de “Segunda Chance”, não é a primeira vez que a dinamarquesa Susanne Bier subverte a lógica e usa o instinto “paterno” como elemento propulsor de seus protagonistas masculinos. Em “Serena” (2014), filme quase imperceptível por problemas de distribuição, o personagem interpretado por Bradley Cooper encontra no filho bastardo, defendido por ele com mais do que unhas e dentes, a possibilidade de redenção. No longa que chega agora às telas de cinema, Nikolaj Coster-Waldau (Jaime Lannister na série fenômeno “Game of Thrones”) interpreta o policial Andreas, um homem que leva uma vida sem grandes adversidades até o seu completo envolvimento no caso de um casal destruído pelo vício em drogas. A segurança de um bebê está em jogo. O dilema moral do personagem, fazer o que julga correto por vias tortuosas, tem essa relação com o instinto já mencionado. É a tutela ilegal do bebê, afastado dos pais negligentes, que pavimenta o chão onde Andreas pisa ― um solo mais do que espinhoso que promete feri-lo.

Com a intenção de mostrar o potencial do drama que tem em mãos, Susanne Bier não faz a menor questão de dourar a pílula. “Segunda Chance” é um filme cabisbaixo, trágico, que tem o aspecto sombrio como prioridade, tanto no argumento quanto na estrutura fílmica. É bem provável que intensifique tendências depressivas no espectador desavisado. No entanto, as desventuras de Andreas mostram-se com estofo suficiente para laçar a atenção do público. Não se trata de tristezas vazias rodando em círculos. Logo no início do filme, um paralelo é traçado entre vidas diametralmente opostas. Andreas e a esposa Anna (Maria Bonnevie) surgem unidos por um casamento ainda mais reforçado pela felicidade trazida pelo primeiro filho. Tristan (Nikolaj Lie Kaas) e Sanne (May Andersen), romance que vira caso de polícia, convivem em um ambiente doentio povoado por drogas, agressões físicas e verbais. O clima perturbador é intensificado pelo completo estado de abandono do rebento.

A primeira queda de Andreas, um acontecimento tão cruel que abala os pilares da família, faz com que ele tome uma atitude drástica, insana aos olhos de quem ainda não perdeu a razão: ele sequestra o pequeno Sofus, o bebê do casal de drogados. É a partir desse ato, legalmente proibido, que “Segunda Chance” pleiteia o direito de ser mais do que um filme de desgraças gratuitas. Estimulado pela missão de proteger, Andreas transforma-se em outra pessoa. Interrompe um crime, os constantes maus tratos direcionados a uma vítima indefesa, enquanto alimenta outro, o sequestro do bebê. Uma trajetória que fomenta a reflexão sobre as múltiplas facetas da justiça à medida que a linha tênue que separa o certo do errado, e a morbidez da compaixão, tem o rompimento cada vez mais iminente. No desenrolar dos minutos, a esposa de Andreas, Anna, vai ganhando contornos cada vez mais desconcertantes. Para falar de instinto mais uma vez, a sensibilidade de Sanne é uma incômoda pedra no sapato do protagonista. Outro trunfo do filme é a demolição de uma certeza que parecia indestrutível, modificando o rumo da história. Os minutos vão parecer segundos. Às vezes é bom consumir arte que não ofereça qualquer alívio. É instigante, e não dói quase nada.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4