Selma

por

05 de fevereiro de 2015

A discussão sobre racismo sempre foi um assunto de interesse em Hollywood. Recentemente alguns importantes filmes como Vidas Cruzadas (2011), Django Livre (2012), 12 anos de Escravidão (2013) e O Mordomo da Casa Branca (2013) abordaram o tema de diferentes formas, embora todos sejam unânimes em condenar o preconceito racial como um legado paralisante.

SELMA01

Em Selma – Uma Luta pela igualdade (2014) não é diferente. A diretora Ava Duvernay volta a tocar nesta ferida mal cicatrizada no subconsciente norte americano contando um trecho importante da trajetória do maior líder pacifista negro: Martin Luther King (o correto David Oyelowo).

images (2)

Interessante como documento histórico, Selma – Uma Luta pela igualdade é um filme impregnado de veracidade por todos os lados, afinal a maioria dos personagens ainda está viva e participou da construção do enredo (confirmados nos letreiros finais).  A introdução de legendas dos registros feitos pelos grampos do FBI e algumas cenas de arquivo reforçam a intenção de mostrar a real intimação e humilhação imposta à população negra dos anos 60.

SELMA3

A trama começa no ano 1964 quando King recebe o Prêmio Nobel da Paz. A partir daí, o filme é organizado para culminar nas três passeatas entre as cidades de Selma e Montgomery (capital do Alabama) que conduziram a aprovação da lei dos direitos ao voto de 1965, sendo a primeira conhecida como Domingo Sangrento, quando 600 participantes foram covardemente atacados pela polícia local e estadual.

SELMA4SELMA02

O filme narra os bastidores desta conquista histórica através de vários personagens que transitaram em torno de Martin Luther King, com destaque para sua esposa Coretta (Carmen Ejogo) e seus companheiros e colaboradores. O filme também destaca a relação do líder com o presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson), relação esta mal explorada pelo roteirista Paul Webb que, segundo algumas fontes, é acusado de deturpar verdades históricas em prol de uma licença poética. E é esta liberdade que faz com que este filme não alcance sua potência máxima perdendo pontos por florear demais uma história forte o suficiente para emocionar qualquer platéia.

SELMA01

Os famosos discursos abolicionistas de King, que emocionaram gerações e até hoje são repetidos por pacifistas, perdem muito do seu efeito, porque a diretora os sufoca com um ritmo afetado emoldurados por uma estrutura pomposa. Ava toma muito cuidado em não manchar a imagem quase bíblica de King mostrando-o sempre como uma figura devota e idolatrada, uma espécie de Jesus negro, mesmo quando sua mulher o acusa de manter relações com várias amantes. Mesmo que isso não seja o foco da questão, a narrativa torna-se fragmentada pelos muitos enxertos melodramáticos suavizados por uma fotografia dourada e uma trilha melosa e o resultado final é um filme politicamente correto cujo maior mérito é apresentar um fato brutal de uma nação que ainda se esforça em garantir para seus cidadãos todas as bênçãos de uma vida justa.

 

 

Selma – Uma Luta pela igualdade (Selma)

Eua, Reino Unido, 2014. 127 min.

Direção: Ava DuVernay

Com: David Oyelowo, Tom Wilkinson, Carmen Ejogo, Andre Holland, Oprah Winfrey, Giovanni Ribisi

 

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4