Sem Direito a Resgate

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27 de fevereiro de 2015

O filme “Sem Direito a Resgate” de Daniel Schechter corre o risco da comparação desproporcional em virtude de sua relação com outro longa de indiscutível relevância: o tesouro “Jackie Brown” (1997) de Quentin Tarantino. Apresentados pela primeira vez na tela grande pelo ilustre reciclador de referências cinematográficas, os criminosos Louis Gara e Ordell Robbie foram interpretados por Robert De Niro e Samuel L. Jackson, respectivamente. Uma dupla em perfeita sincronia que evidenciavam, desde a pronúncia dos diálogos à postura, um perfeito domínio da essência e do comportamento peculiar dos bad guys. No filme atual, um prelúdio já que é um recorte de anos antes, Louis e Ordell ganham vida por meio dos atores Mos Def (também rapper) e John Hawkes, uma parceria que, além de deixar a desejar na harmonia, parece inofensiva diante do impacto das atuações regidas por Tarantino. A essa altura, a missão impossível de “Sem Direito a Resgate” já parece bem óbvia ― conseguir independência.

life2Tanto “Sem Direito a Resgate” quanto “Jackie Brown” são roteiros adaptados de obras do escritor de thrillers policiais Elmore Leonard. “Jackie Brown” é baseado no romance “Rum Punch”, com notáveis diferenças que vão além do título, enquanto o filme mais novo tem roteiro adaptado, assinado por Schechter, do conto “The Switch”. Na trama, Ordell e Louis planejam um sequestro que parece tão fácil quanto roubar doce de criança. O alvo é Mickey Dawson (Jennifer Aniston – a preterida do Oscar 2015 apesar da elogiada atuação no ainda não lançado “Cake”), a esposa do corrupto empreendedor imobiliário Frank Dawson (Tim Robbins). Mesmo munidos de informações privilegiadas, os bandidos não conseguem evitar a saída do tiro pela culatra. Na verdade, Mickey é um estorvo na vida do magnata, um problema do qual ele deseja se ver livre. Inclusive, ele já preparou a papelada do divórcio. Enquanto a dupla mantém a vítima em cativeiro negociando em vão o resgate de um milhão de dólares, Frank aproveita a vida com Melanie (Isla Fisher), a sensual amante de caráter questionável, outra figura presente em “Jackie Brown”. Na ocasião, um papel de Bridget Fonda.

life3O grave deslize do filme é a cautela em apostar na natureza cômica desse texto de Leonard, onde temos o crime fracassado e seus risíveis desdobramentos. O longa fica na corda bamba entre a tensão e o riso, sem decidir onde quer verdadeiramente se lançar. Pela falta de ambição que não permite ir além de um projeto insosso, ou apenas correto, o bom desenlace, tão compatível com a narrativa apoiada em fatos inusitados, acaba empalidecido. A título de curiosidade, o conto “The Switch” foi o primeiro contato de Quentin Tarantino com a obra de Elmore Leonard. De acordo com o livro sobre o diretor da autoria de Paul A. Woods, lançado no Brasil pela Leya, Quentin teria sido pego em flagrante aos 15 anos de idade roubando uma cópia da obra. Pena que o texto, desta vez, não caiu exatamente nas mãos certas.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3
  • http://www.tupi.am/nafita Ana Rodrigues

    Ótima análise. As deficiências e virtudes em dose equilibrada. Vou conferir.