Semana dos Realizadores – Balanço da Noite de Abertura

Destaques entre longas e curtas metragens, mostras e homenagens, masterclass e debates

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21 de novembro de 2015

A sétima edição da Semana dos Realizadores começou, Mostra independente do cinema nacional mais alternativo de baixo orçamento, sem as mesmas chances de exibir suas produções no grande circuito, e que já há sete anos o evento serve como vitrine para alçar novos vôos para estes maravilhosos projetos.

Após a edição do ano passado com alguns dos novos clássicos do cinema nacional indie como “Ventos de Agosto” de Gabriel Mascaro, “A História da Eternidade” de Camilo Cavalcante, e o ganhador de melhor filme no evento “Ela Volta na Quinta” de André Novais Oliveira, e muitos outros, a Semana recebeu o laureado André de volta logo em sua noite de abertura, desta vez com seu curta metragem “Quintal”, sucesso na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2015, mais uma vez trazendo seus próprios pais como protagonistas da história. Surpreendendo os espectadores mais acostumados com sua filmografia regada ao naturalismo quase documental, desta vez inovou com toques de fantasia e ficção científica sutis o bastante para não chocar sua plateia fiel, mas ao mesmo tempo arrebatar ainda mais público como alvo. A carismática Maria José ‘Zezé’ Novais, mãe de André, e seu pai Norberto interpretam um casal comum que encontram atividades paranormais em casa. Desde um vórtice que leva a outra dimensão a tufões que secam a roupa do varal mais rápido que o normal. Tudo isto para ressaltar as extravagâncias do cotidiano que todos gostaríamos de ousar realizar, mas nunca nos damos a força necessária. Um exemplo é a dona de casa que recebe telefonema do político envolvido em escândalo nos jornais, ou que num instante seguinte está fazendo exercícios em sua academia e recebe proposta para virar sócia. Tudo isto pareceria implausível não fosse a extrema capacidade de André em plantar os pés da câmera no chão e deixar o espectador viajar com os personagens, e não o contrário.

O aclamado curta foi sucedido pela exibição do novo longa de Allan Ribeiro, “Mais do que eu possa me reconhecer”, retratando o artista plástico Darel Valença Lins, e, da mesma forma que os quadros do mesmo, a narrativa vai quebrando toda forma de linguagem tradicional, e querendo contar mais pela forma do que pelo conteúdo com alguns resultados eficientes e outros mais ousados nem sempre com a mesma eficácia. Porém, entre experimentações visuais com câmera em punho e imagens trabalhadas no computador, é a simplicidade de pensamento do retratado que realça os contornos carismáticos, afinal, não obstante experimentar, o cinema acaba se resumindo ao que toca ou não toca o espectador, e dentre todas as linguagens inovadoras, a técnica que mais salta da tela é uma das formas mais tradicionais e confiáveis que não podem ser quebradas: o carisma do biografado. Se há, o filme dá certo, se não houvesse, nada que se pudesse inventar no mundo imagético poderia compensar. E no caso de Darel, o senhor de vida complexa e machucada conquista ao longo da projeção com seu jeitinho brejeiro de ver a vida e a morte, após ter sido cercado por infortúnios como o suicídio do filho. Eis que Allan cria um vínculo artístico com Darel quase numa linha paterna, uma dicotomia interessante entre a tecnologia nova de um e a clássica do outro, o olhar prático e progressista de um e o puro e quase ingênuo do alto da experiência que às vezes faz com que a alta idade regresse aos picos de criatividade ingênua da infância.