Semana dos Realizadores: Debate de construção de gêneros no Cinema contemporâneo

Grandes representantes femininas debatem a construção do gênero no cinema e a fusão das fronteiras do feminino/masculino

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24 de novembro de 2015

Fotos por Rodrigo Gorosito

A 7ª Edição da Semana dos Realizadores e o tour de force de sua organizadora Lis Kogan tiveram a enorme honra de trazer seis mulheres notáveis em suas áreas para questionar o que seria a construção de gênero no cinema contemporâneo e um retrato da presença feminina na realização de Cinema e outras formas de arte em geral na atualidade. Uma provocação e estímulo aos presentes naquele inesquecível dia de domingo de sol, e aos leitores desta matéria, a se autoquestionarem sobre novas formas de expressão, sejam vindas do homem ou da mulher, mas que exerçam ou homenageiem a grande simbologia feminina de força geradora do mundo.

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A renomada preparadora de elenco Amanda Gabriel (“Tatuagem” e “O Último Cine Drive in”) mediou o debate com a pesquisadora e doutora em Ciências da Comunicação Ilana Feldman, a diretora Anita Rocha da Silveira (que recentemente dividiu o prêmio de melhor direção no Festival do Rio por “Mate-me Por Favor”), a multi realizadora Joana Gatis (que exibiu seu curta “Soledad” na Mostra Competitiva da Semana dos Realizadores), e as atrizes Maeve Jinkings (dos cults “O Som ao Redor”, “Amor Plástico e Barulho” e o novo “Boi Neon” laureado nos últimos Festivais de Veneza e do Rio), a portuguesa e defensora dos direitos sociais Isabel Martins Zua Mutange (estrela do novo “KBela”, forte representante da cultura negra e da pulsante arte alternativa à margem do mainstream), e Aleta Valente, também conhecida como a personalidade viral fictícia Ex-Miss Febem, que anda explodindo as redes sociais com suas fábulas de si mesma cheias de erotismo social.

Ilana começa realçando que inúmeros fatores andam retomando questões clássicas sob uma nova ótica, o que reforça o debate sobre a submissão da mulher. Apenas em poucas semanas vieram à tona acontecimentos que estremeceram alicerces, como os atentados à bomba em Paris, com menção a mulher-bomba na sequência dos dias seguintes ao evento, ou mesmo a marcha das mulheres negras em Brasília que foi rechaçada com extrema violência por força policial. Há sim na sociedade brasileira uma Tradição Patriarcal. E, nisto, Ilana faz um resgate e conserta um erro histórico:

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“Freud recebeu leituras equivocadas, como sendo um misógino e machista, quando na verdade ele soube ouvir a mulher como nunca antes. Ele e Nietzsche, mesmo que hoje vistos de forma radical, foram os primeiros a traçar que o significado de mulher vinha da negação do homem, do preenchimento de lacunas em que a figura masculina negava a mulher. Este ser faltante/castrado que ameaçava o homem. É esta forma que devemos reinventar. Aí entraria o olhar da ficção, da arte pra reinventar seu sentido na existência. E o espaço feminino é o mais propício para a invenção. Eduardo Coutinho (saudoso e renomado diretor brasileiro de documentários que tangenciavam a linha da ficção) em um de seus filmes de mais sucesso, “Jogo de Cena”, já dizia que todo grande ator é uma mulher. Por que, então, à mulher é associado o engano, o fingimento (como o da atuação)?
O domínio do masculino geralmente está ligado ao saber – criar um espaço, uma linguagem etc. Enquanto o da mulher geralmente está ligado ao vazio, ao esquecimento, assim como esta simbologia dá continuidade em tantas tradições e culturas diferentes. Mas a luta feminista é não apenas sobre igualdade de direito, como respeitar as diferenças. Ou seja, não é igualdade ontológica de ser, entre x e y. Um bom exemplo cultural deste arquétipo é o literário de Madame Bovary. Ela era sempre objeto do que amava, como dos romances que vivia lendo, até que se torna ela mesma objeto de um, e nunca sujeito, de forma trágica.

Outra importante menção literária é a da simbólica autora Simone de Beauvoir, que sempre afirmou também que toda mulher seria um eterno devir (ou seja, um porvir). É ‘tornar ser’. A mulher é sempre construída como imagem, olhar do outro. Não só na Hollywood clássica. Em “O Desprezo”, de Godard, considerado um grande pensador vanguardista, a mulher também havia sido retratada assim. Mesmo que posteriormente tenha retratado desejos mais livres como sujeito da ação em filmes posteriores. Ao invés da ‘representação’ da mulher, o que é muito heteronormativo do homem como modelo, deve-se sugerir a ‘autoficção performática’. Pensar a mulher como performance per si, uma gestação, até dissimulação de arte. Como algumas cineastas representativas, por exemplo, já pensaram na história do cinema: a recém falecida Chantal Akerman e Agnès Varda, que retrataram sempre o feminino como bastante pungente e dramático.

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Amanda, então, passa a palavra para a cineasta Anita Rocha da Silveira, que logo após agradecer por ter sido a primeira vez que foi chamada para uma roda de debate tão interessante e ampla quanto esta, a qual não pediria de si falar unicamente sobre seu último filme, e sim sobre temas muito mais universais, sentiu a necessidade de expressar a lacuna que sente no sistema de ensino de cinema quando voltado para as mulheres no país:

“Sempre priorizei a liberdade no trabalho e na escolha de temas. E acabei saindo com certa revolta da faculdade antes mesmo de acabar. O machismo frequentemente tinha preferência em todas as coisas. Como, por exemplo, na escolha de equipamento para filmar, que sempre ia para os homens primeiro. Comecei a me acostumar a presenciar coisas ofensivas e não falava nada. Até que fui ganhando voz aos poucos até chegar a esta altura em que não tem mais nada a perder em expressar sua voz abertamente.”

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(exemplo disso foi o caso recente em que dividiu o prêmio de direção no Festival do Rio por seu último filme “Mate-me Por Favor”, onde foi anunciada como ‘melhor diretor’, no masculino, ao invés de um simples ‘melhor direção’, o que gerou repercussão nos jornais e redes sociais)
Anitta rememora conversa recente que teve com a mediadora Amanda Gabriel em relação à representação da mulher nas artes clássicas, onde a forma de representação clássica mais relevante para uma construção evolutiva da mulher na forma que chegou aos tempos de hoje realmente foi a de Shakespeare:

“Era encantador possuir personagens femininos que se fantasiavam de homem para a narrativa poder continuar. Depois, no palco da época, apenas homens podiam interpretar, e geralmente tinham de se travestir de uma mulher que, por si, tinha de se vestir de homem. Até os dias de hoje existe um preconceito de que só um protagonista masculino poderia criar uma identificação mais universal. Uma narração sempre guiada pelo homem. Às vezes a espectadora mulher até entende melhor o personagem-homem do que as personagens representativas do feminino na narrativa, de tão imbuído que isso está na cultura. Para expandir este conceito, não tem como não cair em diretoras mulheres, mesmo não concordando necessariamente com elas, pois alguns temas só elas trabalham (com exceção de poucos homens).

Há uma necessidade de mais mulheres autoras, mesmo sem um personagem feminino, para tratar de um olhar feminino além do tema. É um absurdo que nos EUA somente 1% dos blockbusters tenham mulheres por trás da direção. Às vezes a mulher no mesmo lugar do homem é tratada como chata ou mandona, enquanto que a mesma forma de agir por parte dele é vista como a de um líder nato. Ou o caso do ator, por exemplo, que é tido como reflexivo e compenetrado no papel, mas a atriz é tida como metida, até mesmo por outras mulheres.

A 1a personagem feminina com quem me identifiquei na vida foi a Wandinha Addams. Para começar que ela se vestia quase igual ao irmão, as mesmas cores, e não era isto o que distinguia a identificação de cada um. Era a personalidade. Uma cena marcante para mim é a de seu sorriso forçado quando é obrigada a se adequar às normas vigentes.

Outro bom exemplo são os seriados de TV americanos, começando a ter mais representatividade feminina, como Shonda Rhymes que possui três séries no ar. Uma protagonizada por mulher branca acima de 40 anos. Outras duas protagonizadas por mulheres negras. Características que quebram um pouco os estereótipos vigentes.

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Amanda então passa a palavra para Joana Gatis, multi realizadora que trabalha em vários departamentos do cinema, como atuação, figurino, produção e até atualmente direção, como na recente première de seu curta metragem na Mostra Competitiva da Semana dos Realizadores, “Soledad”, um faroeste feminista também protagonizado por Gatis, gênero que geralmente não é associado às mulheres. Pelo que começou como realizadora pensando em como seria cada detalhe, como o figurino, como vestir a mulher, e como é ser agora dona da narrativa e de todos os olhares:

“Sou pernambucana lugar extremamente machista. Lugar de cabra macho. E de mulheres mais fortes ainda. Tanto que às vezes mulher até dava surra nos cabras, o que era a maior diversão. Desde cedo quando comecei a expressar meus anseios através de propensões artísticas, minha mãe não me deixava fazer faculdade de cinema porque só tinha no Rio. E o próprio meio onde morávamos tinha muitos preconceitos, ainda mais porque minha família já era composta por mãe e pai artistas plásticos.
Eram diferentes. E eu era mal vista. Então passei até a não ligar, e me expressar de todas as formas. Andava nua e tinham medo de mim.
Foi apenas quando me casei que meu marido levou pra SP. E eu demorei a vir a descobrir que a mulher/Gaya, que me deu muitas chances de trabalho, dormia com meu marido. Mesmo tendo me feito sofrer muito na época, eu não a culpo, pois ela foi minha 1a Gaya (referindo-se à primeira fonte motriz de força feminina inspiradora). Reconheço a chance profissional que me deu mesmo sofrendo muito. E por que nesta sociedade nunca é culpa do homem? É sempre da mulher. E não concordo com isso, pois as mulheres devem unir suas forças.

Foi com outra controvérsia que vim a ter minha chance de estrear na atuação, com meu amigo o diretor Claudio Assis, que reconheço ser uma pessoa polêmica (o mesmo envolvido no escândalo recente de quando interrompeu o discurso da amiga Anna Muylaert em evento especial para ela), mas que me deu a chance de fazer “Baixio das Bestas”. Ganhei força com isto. Mesmo um filme violento com a mulher, não retrata nada que não exista na vida real. Antigamente os pais tiravam a virgindade da própria filha como um costume regional. E na época do filme, eu e minha amiga que também estava no elenco nos empoderamos muito, ajudou a nos dar confiança em nos expressar como mulher. Depois disso, fiquei grávida. Cheguei a trabalhar com Eduardo Belmonte e com Susana Amaral, que me ensinaram muita coisa. Toquei o terror em Brasília, e também fiquei mal vista lá (risos), mas precisava de tudo isso para me autodescobrir.

Tornei-me, então, figurinista, o que também é visto com muito preconceito na indústria. Como se fosse apenas alguém que gostasse de moda. Figurinista e maquiador costumam ser só mulher e gay. Sem nenhum representante hetero-branco. E também trabalhei e aprendeu muito com a maravilhosa Maeve Jinkings (também presente no debate) no filme “Amor, Plástico e Barulho”. Ela me deu muitas dicas sobre a profissão, além de ter sido minha confidente para todas as minhas questões. E foi aí que descobri que tenho uma sexualidade muito aflorada, e não posso beber muito (mais risos). Mas passei a entender isso sem preconceitos contra mim mesma, pois antes não compreendia devido aos moldes impostos pela sociedade. Não é uma doença (apesar de ser uma característica rejeitada pela sociedade por não querer compreender).

Já o trabalho de “Soledad” começou porque tive um sonho que levou ao roteiro do filme. E numa época péssima, que estava sem lugar para morar, e foi aí que graças a Deus uma amiga ofereceu dividir uma casa, Flávia Vilela, que viria a ser a codiretora de “Soledad”. Não dava mais para compartilhar a vida ou trabalho com meu ex-marido. Estava com muito ódio no coração. E sempre amei o gênero de filme do faroeste, que não é só para homem não. Gosto de violência. Gosto de trabalhar o sexo. E encontrei esta identificação também no outro codiretor do curta, o Daniel Bandeira, com quem dividi a visão, pois é alguém que me respeita como sou e à minha visão, pois não são muitos que me compreendem. Tanto que quando anunciaram que eu havia feito este projeto, muita gente pensou: ‘aquela louca filmou um filme?!’ (ainda mais risos). E na verdade tenho muito interesse em aprofundar o estudo desta maneira diferente de ser. De apreciar o sexo e o corpo. Tanto que tenho planos para fazer no futuro filmes pornôs voltados para o público feminino, que não é uma sexualidade explorada no gênero.

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Amanda, então, anuncia a ausência de outra grande mulher que iria estar presente neste dia, Yasmin Thainá, mas que não pôde por seu curta “KBela” ter sido selecionado para um Festival internacional na África, e, justamente por esta incrível capacidade de escuta para o que é diverso, tão importante pro feminismo subsistir em sua multiplicidade, que pediu para a atriz portuguesa Isabel Martins Zua Mutange ler uma carta que Yasmin escreveu especialmente para o evento (a íntegra da Carta se encontra no site e na página oficial da Semana dos Realizadores no facebook):
“Agradeço muito pela oportunidade do convite e de ser ouvida no debate, representando o direito das poucas realizadoras negras que conseguiram trabalhar afora da pobreza e da dificuldade, enfrentando todo tipo de preconceito por ser da Baixada Fluminense. Escrevo de Cabo Verde na África pra onde levei meu curta “KBela”. E peço para se debater mais a construção de nossas representações nas artes, pois somos todos muitos povos e diferenças, e mesmo assim a Semana dos Realizadores deste ano não teve quaisquer mulheres negras realizadoras. Fiz questão de conferir e pesquisar todos os colegas realizadores exibidos na Mostra, por estar tão feliz com o convite de participar de algo assim, e me entristeci quando notei que havia poucas mulheres, e nenhum negra. Até sim homens negros, no que ressalto o nome de André Novais, com que compartilho não só a amizade como extrema admiração de ideais em sintonia. Não é que esteja pedindo pra olhar os rostos de quem inscreve os filmes, mas que todos os realizadores, a escutar no momento este questionamento, pensem quanto a isso e façam algo a respeito. Quantos negros e negras fazem parte dos sets de filmagem? São ao todo 52% de negros em meio à população brasileira. Sendo a maioria mulheres. E realizadores ainda são uma maioria branca e masculina. Apenas Zua na banca deste debate é uma mulher negra. Urge uma discussão do privilégio. De fazermos algo com ele. O Brasil não pode ser apenas o mesmo olhar. Deve expandir. Ninguém deve ser privado por gênero e cor de pele.”
A atriz portuguesa Isabel Martins Zua Mutange recebe a vez de agregar a sua palavra depois da emoção de ter lido a carta, e explica a discriminação sofrida desde os estudos em Portugal:

“Eu era a única atriz mulher negra em minha faculdade. E diziam que eu era louca por me fixar na questão da cor em meus trabalhos tanto dentro da faculdade quanto fora dela. Fiz questão de interpretar uma rainha Shakespeariana negra, para quebrar estereótipos. Enquanto isso, a preocupação étnica de alguns outros era apenas na parte estética, de como se auto-afirmar esteticamente, apesar de hoje em dia até estar na moda o modo de vestir étnico cheio de estampas e acessórios, o que não é ruim, é bom, mas tem de se ir além. Tenho um privilégio por ser estrangeira, pois me acolhem melhor. Mas a mulher ainda tem preconceito machista contra si mesma. Como não ter tido filho pra prosperar na carreira. E eu sempre me inscrevo para a leitura em testes para personagens AA, geralmente princesas brancas, e sou eu a sugerir que sejam princesas africanas. Sugerem muitos papéis estereotipados. E mulher é tida como mais baixo na cadeia alimentar, a qual todos consomem. Achavam que eu era negra demais, ou tinham problemas com meu cabelo curto. Exigiam que eu pusesse peruca como sinal de beleza padronizada com cabelos longos e lisos. E sempre questionei isso. É por isso que encontro maior identificação com diretoras negras que pensam como eu, como preocupações principais étnicas. Sempre reparo quantos negros estão na plateia, por ser um instrumento até de defesa de representatividade social. Procuro também mulheres indígenas e sociedades matriarcais. Achamos ser topo da cadeia alimentar e não somos nada ainda. Há muito o que aprendermos.
Amanda acrescenta que Solange Couto, atriz negra da Globo, fez recentemente um relato sobre sua carreira, e realça o maior número de personagens empregadas, prostitutas etc que constatou já ter sido obrigada a fazer. E poucas não se encaixavam neste padrão. Zua relembra também o próprio caso da grande atriz Zezé Motta, hoje um baluarte da cultura negra, mas que disse que apesar do prestígio de hoje, muitas personagens do início eram “personagem negra sem nome”.

A atriz Maeve Jinkings recorda desde sua estreia nos cinemas com “Falsa Loira” do saudoso Carlos Reichembach, ao sucesso com “O Som ao Redor”, e como seus filmes lhe ensinaram muito em termos de questionamento de seus direitos e de como expressá-los no mundo:

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“Já fiquei nervosa, comovida e muitas outras coisas com as falas das representantes femininas nesta roda de debate. Tenho muito a agradecer por poder estar entre elas. Minhas questões de privilégio também me levantam muitas questões. E não falo em culpa. Temos de sair das queixas e chegar a lugar mais propositivo. Grandes colegas negros me ensinaram muito sobre questionar o espaço de privilégio como artista. Geralmente um espaço usado até hoje como lugar de ‘objetificação’ da mulher. Há diretores que dizem que mulher e vaso são a mesma coisa (ordenam: “Chega pra lá”), quando eu fazia teatro na USP. Sou filha de classe média burguesa, o que pode cegar de certa forma sim, e foram estes questionamentos da profissão abriram os meus olhos. Apesar de ouvir estas lutas e conquistas maravilhosas de minhas colegas, a verdade é que tanto para mim como para a maioria das minhas colegas atrizes não foi fácil enxergar isso tudo: como Ilana falou, isto que é se dar conta de que você está à disposição de um discurso que você não concorda, e às vezes não sabe ainda o que significa direito. E quero muito ser uma atriz-autora. Colaborativa do discurso. Amo tudo o que minha história como atriz me ajudou a fazer. E minha capacidade de leitura ainda é limitada até hoje, sempre crescente. Há uns 5 ou 6 filmes era ainda mais limitada. Um exemplo desta forma como não costumamos enxergar foi quando uma amiga me mandou link de novo trabalho num filme extremamente machista, e não percebeu como foi objetificada. E isto a pessoa só pode enxergar dependendo de como se vê neste lugar.

Sou atriz há quase 20 anos, e talvez há 3 anos me preocupo em aprender este que chamo de alfabeto semiótico. Por que isto não está sendo ensinado desde a escola? Desde o maternal? A atriz americana Geena Davis, por exemplo, tem um projeto sobre como personagem reflete questões de gênero desde desenhos animados, o ‘Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia’. E tudo isto frente à repercussão positiva da inclusão no último exame do Enem de temática feminista citando Simone de Beauvoir (no que Anitta acrescentou: O lance do Enem teve de chegar a isso porque o Cunha retirou o estudo de gênero do currículo escolar).

Em geral, costumam ser uns 20 atores formados por ano na Instituição em que estudei. Em meu ano, especificamente, foram 5 negros, uma taxa até acima da média, ainda que abaixo do ideal. E eles criaram um grupo em SP: ‘Os Crespos’. E eu achava eles incríveis, políticos. Queria trabalhar com eles. Às vezes eram agressivos na causa, mas aprendi muito, em enfrentar meus preconceitos internos. Pois também sou estigmatizada como branca-morena. Provocaram e me educaram.

O olhar do outro que aprendemos a usar sendo atriz, que toma o olhar do outro pra si, é muito importante para podermos discutir como nos vemos. Há até um documentário que deveria ser dado nas escolas, de Joel Zito Araújo: “A Negação do Brasil”, sobre a representação dos negros na história, por exemplo como da telenovela brasileira. Me comoveu muito quando vi pela primeira vez. Deu uma angústia: o que neste papel é meu? O que poderia colocar nele pra quebrar esta dinâmica? Nisto, o cinema autoral, independente, e o cinema Pernambucano me ajudaram muito.
Cheguei com preconceitos na personagem Jaqueline de “Amor, Plástico e Barulho”, pois ela usava sua sexualidade a seu favor. Por que o nu me incomodava? Uso a nudez tão facilmente dramaturgicamente no teatro. Não sou uma pessoa moralista. Então descobri que o que me incomodava era saber de qual olhar se tratava? Uma amiga disse traumatizada sobre isso: por que sou tão objetificada? O analfabeto sem saber ler não vai poder questionar. Por isso o alfabeto semiótico.
Então Aleta Valente, a personalidade viral fictícia Ex-Miss Febem, ganha a palavra:
“Uma pauta que notei atravessar este debate é a quebra do racial. Há segregações através do micro-tom de pele. A cooptação de universos do minoritário, como mulheres, negros etc. Meu 1º papel foi com Coutinho no “Jogo de Cena”, há 8 anos. E havia uma fila de mulheres para assistir na première. Eu já assistira “Edifício Master” antes na minha vida, mas eu ainda não atentava ao autor ou à questão da autoralidade. E eu tinha uma filha de 3 anos para cuidar, outras preocupações e dificuldades familiares. Tivemos, então, uma sessão apenas para as mulheres nas pré-estreias de “Jogo de Cena”, tanto para as atrizes desconhecidas quanto para as conhecidas para desafiar o espectador comum. Como o público veria. E minha personagem era a de uma mulher que sofria uma exposição terrível. E Fernanda Torres era quem reinterpretava meu texto. Comprei vestido de gala, e me sentia super bem. Mas na sessão me senti péssima. As pessoas com pena de mim durante a projeção (diziam: ‘coitadinha dela’). Mas era só a minha interpretação do texto, e achavam que eu não estava interpretando, que o relato de minha personagem era meu. E mal sabia eu na época que era o Show do eu, da Auto-exposição. Um Big brother da sociedade. E o filme ficou 8 meses em cartaz. Eu não acreditava mais. Queria jogar uma bomba nos cinemas. O incômodo de me ver no filme era de me ver como o outro.

Domingos de Oliveira, que era o diretor de ator da Fernanda, me convidou depois para atuar. Como uma empregada. Pensei: agora vou pro mundo. Mas continuava a sentir incômodos, mas não conseguia identificar o que era. Eu chamava o canal do Leblon, por exemplo, onde nos reuníamos com Domingos, de valão, e todos riam, mas era como me referia ao canal de onde eu morava em Bangu. Eu era um animal de zoológico. Comprei até um presente pra Domingos, sem nem saber o que dar para um ídolo intelectual, e ele me disse: você é um Dostoievski. E só descobri depois que era toda uma análise psicológica se eu sabia viver ou não em sociedade.

Fiz Belas Artes, circuito das artes visuais: muito representativo da burguesia. E sabemos como a mortalidade do artista é grande, pois vai pra outras carreiras e desiste. E foi aí que aprendi que não podia falar tudo abertamente senão me julgavam. Descobri também certos códigos sociais: como que eu não era alcóolatra, pois bebia tanto assim porque se não ficasse bebendo na Lapa não tinha onde dormir de um dia pro outro. Tudo por morar em Bangu. Ou ficava com alguém pra ter onde dormir. Achavam que vinda de Bangu eu seria não só indígena como criminosa. Fui aprender sobre estes arquétipos só recentemente, como gêneros, classes e raças.

O smart phone mudou minha vida. Youtube hoje em dia é cinema. É Viral. E a linguagem dos Meme também. Séries e cinema são incrivelmente hierárquicos, mil pessoas pra pensar o pensamento de apenas uma pessoa. E eu não sou assim, preciso de linguagens mais práticas e imediatas, com poucos recursos. Estava em depressão começando a usar só redes sociais, muitas fotos. E aí pirava nisso tudo até que começaram a aceitar isto que eu fazia como ficção, e decidi desenvolver. Demorei a usar Instagram porque era exclusivo do iphone e achava discriminatório, porém quando eles democratizaram e eu pude vencer o preconceito e usar, descobri todo um novo mundo, sem a mesma censura da patrulha do facebook. Assim como cinema mostra mundos, parece que o que ele não mostra não existe. Some. E decidi, então, mostrar tudo. Virou ficção tudo o que postava. E curtem meus posts tanto artistas de nome quanto gente com quem eu trabalhava, pois sempre trabalhei com homens, apelidada como almôndega por causa da legging branca. Por isso pêlo no sovaco me protege de alguma forma. Dá um curto circuito na cabeça do outro. Corpo de mulher vende tudo, até pneu. Mas se você se autoexpõe, dizem que você está se vendendo, e por isso uso tudo isso. E já existe muita representação de mulher, como trans e etc, por isso tinha que representar a mulher sis também. Desculpa fazer uma auto-promoção, mas se quiserem me seguir, procurem no face e no Instragram: Ex-miss Febem, e irão achar todas as polêmicas desta personagem, os nudes, os travestis, as drogas, a criminalidade e etc…

Lis Kogan e Amanda Gabriel chamam neste momento Marília Nogueira, roteirista e diretora na Ipê Rosa e diretora executiva na WIFT-Brasil, para explicar um pouco melhor a criação e convite para o Prêmio de Roteiro do Instituto Cabíria (referência à clássica personagem feminista do filme “Noites de Cabíria” de Federico Fellini:

“Nós sentimos a necessidade de criar um Prêmio para Projetos não apenas protagonizados por mulheres, mas como realizados por elas, por seu ponto de vista. Não deu para esperar patrocínio ou lei de incentivo, então criamos com o Catarse. Até 8 de dezembro poderão ocorrer as inscrições com prêmio em dinheiro. Vale ressaltar algo polêmico: O prêmio também é aberto para homens. Porém benefícios e mais prêmios só para mulheres existirão. É uma educação de público, por isso abrir para homens também. Já sofri machismo não só por homens como por mulheres. E agradecemos desde já a grande ajuda que a Maeve Jinkings está nos dando.”

E Maeve complementa: “Precisamos alfabetizar para estes discursos, pois eu mesma desde que comecei a me educar e me colocar, demonstrava às vezes algumas coisas que os próprios perpetradores do preconceito não se davam conta antes, e depois de darmos um toque neles, até se tornam receptivos. É por isso que vale abrir para homens, para educar.”

Ilana também agrega: “A emancipação da mulher implica a do homem também. Não falo por exemplo a palavra ‘empoderar’ porque acho a expressão empoderar falicística, ou seja, uma mistura de falo-cêntrica com belicista.

Abrindo para perguntas do público: “A pergunta seria para Maeve e Anita, sobre como é esta colaboração autoral entre os artistas e a direção?”

Maeve responde: “Já trabalhei com Diretoras mulheres que são mais sensíveis ao nosso ponto de vista, como Renata Pinheiro e Gabriela Amaral Almeida, respectivamente de “Amor, Plástico e Barulho” e “Estátua”.
Esta troca com as diretoras foi muito importante para me encontrar com personagens fortes (desde a personagem de “O Som ao Redor”, também fortíssima, e não estamos falando de ‘tempo em tela’). Eu antes não tinha consciência da minha projeção destes debates. Fiz “Boi Neon” logo depois do “Estátua”. Entendi que era bastante feminista. Sai bélica, também porque nossa preparadora de elenco Fátima Toledo me tornou bélica num mundo de personagens masculinos. O cineasta de “Boi Neon” Gabriel Mascaro pode confirmar que foi o primeiro roteiro em que eu realmente trabalhei meu lugar no roteiro. Com dor. Não sabia se estava invadindo lugar dos outros ou não. Cada vez que me colocava sentia como se gritasse por dentro minha liberdade, mesmo falando calmamente. Me permitir ter a generosidade que espero do parceiro de trabalho e sair do lugar fechado para que o outro saiba o que penso.

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Anitta: “Em ‘Mate-me Por Favor’, tive de criar todo um universo, algo novo. Meus personagens. E trabalhar com adolescentes é ainda mais perigoso. Mania de serem artistas. Só de eu ter postado no face que procurava por artistas sem experiência daquela faixa de idade adolescente, recebi + de 500. Até imagens seminuas me mandavam sem eu pedir, pois todas querem ser estrelas. Das quatro selecionadas pro elenco final, duas traziam muitas coisas, que eu absorvia ao roteiro. Outras duas eu precisava me impor mais. As que sugeriam mostravam que sua personagem não falava assim, e sim de outro jeito. Dei livros e filmes pra ver. E dependia se na casa de alguma não se falava sobre certas coisas, como sexo, e tomam remédios anticoncepcionais escondido. Virei quase mãe.
E Amanda Gabriel que é preparadora de elenco se dirige diretamente pras atrizes: “Lugar de roteirista é o da fala. Mas do artista é o do invisível. Descobrir o invisível no roteiro.”

Pergunta: “E como o discurso pode estar aberto de forma inclusiva ao outro gênero? Ou mesmo como pode aproximar os discursos?”
Aletta responde: “Li muitas ‘bios queers’ (biografias gays). Muitas eram de lésbicas. E acredito na inclusão de gêneros. Já tive relações com mulheres, mas não me sinto homoafetiva. Em termos de sentir por outras mulheres algo romântico. Mas sempre fui mais menino. Pego homens sensíveis, e sempre estou lutando contra meus próprios preconceitos. Pego agora pela primeira vez um boy não-loiro e de cabelo comprido que foi o estereótipo que aprendi a gostar, tipo ‘Hanson’ (risos). Mas creio que sou o homem da relação e pego homens sensíveis para os quais mais uma dose de estrogênio viraria mulher.
Já Anitta separa gênero de sexualidade: “Não acho que devemos ter a obrigação de emancipar o homem. Já me acostumei demais a engolir coisas terríveis de homens e não falar nada. Agora falo tudo. Mas não cabe a mim ter de ensinar. Apesar de reconhecer que sim, temos de abrir o canal de comunicação.”

E um rapaz na plateia frente a resistência de aceitação do gênero oposto no discurso puro de gênero, ainda mais o feminino ao masculino, justamente por ter sofrido historicamente de supressão e repressão, acrescenta uma peça que viu um dia anunciar que aceitava apenas plateia feminina. E ele chegou e disse: “Mas quem lhe disse que eu não sou mulher? O que é ser mulher? Assim como Simone de Beauvoir disse que ser mulher é “tornar ser”, ser homem também é um tornar, independente do corpo que habita. E minha mãe é a pessoa mais machista que já conheci. Ela tornou-se um ser-homem. E luto contra isso em mim. Pois acho que represento um ser-mulher”

Pergunta: “E como trabalhar em cena este tornar ser? Este espaço de lacuna a preencher?”
Amanda: “Reitero que deve se encontrar esse lugar do Invisivel. Sobre o que o filme é e não apenas sobre o que o roteiro é. Só o ator sabe. Por isso se diz que o ator é mulher.”

Lis Kogan agradece a presença de todos em ajudar a tornar o dia tão histórico e necessário, e anuncia os próximos filmes que seriam exibidos naquela sala, incluindo o novo “Seca” de uma grande realizadora feminina Maria Augusta Ramos, e promete que este debate de hoje ecoará de muitas formas para as próximas edições da Semana dos Realizadores, esperando apenas crescer e expandir, com agradecimento ao fiel apoio ao cinema nacional independente em um Festival propriamente independente, com patrocínio da Petrobrás e da RioFilme, que contou até mesmo com representantes importantes do mundo do cinema em apoio à desmistificação da arcaica fronteira de gêneros feminino/masculino, como Eduardo Valente da ANCINE e toda a sua família, incluindo a nova geração de pequenos futuros cinéfilos, e até mesmo a representante da Petrobrás que fez questão de levar sua filha adolescente para também romper barreiras de gerações.