Sentimentos que Curam

Quando a tradução para o título original é infinitamente inferior, quase deixando passar esta pequena jóia rara

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12 de agosto de 2015

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Como às vezes uma péssima tradução para o português de um incrível título original pode sem querer diminuir o interesse do público perante uma verdadeira obra ímpar. “Sentimentos que Curam” ou, na melhor forma criativa, “Infinitely Polar Bear”, significando na correspondência literal “Infinitamente Urso Polar”, um jogo de palavras com o estado de saúde do protagonista que além de bipolar, pode ser tanto um papai urso carinhoso, como um abraço de urso fora de controle. Sem falar que Polar também se refere a sobreviver ao inverno, já que a narrativa é dividida nas 4 estações do ano. Isso quer dizer que há muito para a história além do título em português, neste debut de Maya Forbes como diretora, cujo potencial já havia sido mostrado como roteirista na sensibilidade feminista da animação “Monstros Vs Aliens”.

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Na trama, uma mãe de família (Zoë Saldaña, rendendo bem mesmo longe das maquiagens de “Avatar”, “Guardiões da Galáxia” e “Star Trek”) precisa viajar para estudar e garantir um emprego melhor no estado de penúria egresso da era hippie da década de 70, deixando as duas filhas pequenas unicamente sob a guarda do esposo doente (Mark Ruffalo) que não pode trabalhar pelos males psicológicos supracitados. Como um filme de época, agrega muito aos valores pré-estabelecidos, uma vez que o mercado de trabalho era essencialmente machista ainda, e o fato de a figura paterna permanecer como dona-de-casa para cuidar dos filhos era muito mal quisto; especialmente se o pai fosse caucasiano e a mãe negra. Além disso, as relações que consubstanciam o personagem de Ruffalo são muito bem construídas, afinal, desde o sucesso como Hulk em “Os Vingadores” ele vem recebendo as melhores ofertas de roteiro para potencializar seu estilo de encantadores personagens em grave desequilíbrio. Aqui, vindo de família rica por deter direitos autorais que rendem até os dias de hoje, porém controlados pela avó sovina, os próprios pais dele foram mimados em berço esplêndido sem nunca terem trabalhado, e sim receptores de mesada da matriarca. E como casou no apogeu das drogas, a própria esposa demorou a se dar conta de que o marido era mais afetado psicologicamente do que meramente por maconha, por ser doente de verdade. Ou seja, há amor ali envolvido. Compreensão. Tolerância. Mesmo onde até a paciência tenha limite, e uma hora ou outra se torne muito difícil ‘bater palminha para maluco dançar’. A sorte é que, tanto para o formato do filme, quanto para seu conteúdo, as duas filhas são não apenas ótimas personagens maduras que ajudam a cuidar do pai tanto quanto ele delas, como também são muito bem interpretadas pelas atrizes mirins.

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A fotografia delicadíssima do filme parece ter saído de uma antiga máquina fotográfica polaroide, envelhecida na medida certa para que figurinos pós-hippies e ligeiro uso de câmeras lentas não se tornassem bregas. A evolução do tempo ao redor dos personagens, seja de cortes de cabelo e figurinos, a folhas outonais e ruas cobertas de neve importam muito para a maturação, escolhas e perdas das personagens. Nunca piegas, e sim agridoce, pois talvez o maior mérito do filme, mesmo que não seja um estudo aprofundado do protagonista, e nem se pretende ser, é ao invés disso um sincero e puro jogo de erro e acerto da vida real, sem nunca cair na condescendência nem passar a mão na cabeça de nenhum dos envolvidos. O próprio personagem de Ruffalo não apela para autopiedade da própria situação e nem deve o leitor. Retrato digno de uma família disfuncional amplificada pela crônica de seu tempo.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5