Stations of The Cross

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03 de outubro de 2014

Há uma certa ironia em um filme uma estética rígida e doutrinadora para abordar os perigos da rigidez em uma doutrinação religiosa. Essa ironia é claramente intencional e é nessa estrutura que repousa as maiores qualidade e as inevitáveis restrições do filme.

O filme narra a história de Maria, uma jovem de 14 anos criada no seio de uma família católica fundamentalista. Tentando seguir todos os dogmas religiosos, ela se vê pressionada em um mundo moderno e frustrada ao não conseguir atingir expectativas impossíveis.

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O filme é dividido em 14 capítulos, cada um filmado em um único take. A câmera permanece fixa em quase todo o tempo, movendo-se apenas em três breves e importantes momentos da história. Junta-se a isso a total ausência de trilha sonora. Toda essa estrutura rígida retrata bem a inflexibilidade da vida de Maria, onde todo pensamento vaidoso é interpretado como pecado e quase toda música teria “influências satânicas”.

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Para não tornar o filme inteiramente estático com a câmera fixa, o diretor se utiliza de alguns recursos para nos dar alguma impressão de movimento, como colocar a câmera fixa em um carro que se desloca ou jovens correndo ao redor da câmera em uma aula de educação física. Fora isso, com essa estrutura fixa, cabe quase inteiramente ao roteiro e aos atores a responsabilidade de conduzir o filme.

A atuação comovente de Lea Van Acken como a jovem Maria merece reconhecimento. É doloroso notar a confusão dessa mirrada protagonista que tenta sempre fazer o que é certo, mas traz em si o conflito entre o que lhe é exigido e a sua natureza humana.

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Entretanto, fora Maria, e apesar do esforço de seus atores, todos os outros personagens apresentam apenas uma única faceta, sobretudo a sua mãe, pintada como a beata de uma nota só. Apesar do risco de se tornar tão efadonho ou didático quanto os princípios que combate, temos um filme original e interessante, se ignoramos sua obviedade.

Festival do Rio 2014 – Panorama do Cinema Mundial

STATIONS OF THE CROSS (Kreuzweg)

Alemanha/França, 2014. 107 min.

De  Dietrich Brüggemann

Com Lea van Acken, Franziska Weisz, Florian Stetter