Taxi Teerã

Dirigindo uma câmera ou um táxi, Panahi usa seu direito à liberdade de filmar como protagonista metalinguístico

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21 de novembro de 2015

Nestes novos tempos de acesso a informações mais rápido do que a velocidade da luz se é dito que quanto mais global se pretende ser, mais regional deverá ser o foco. As histórias mais relevantes acabam sendo as ‘menores’ e intimistas possíveis, a tocar o maior número de pessoas em qualquer lugar do mundo. Pois quando o cineasta iraniano Jafar Panahi foi sentenciado sob acusação de subversão a não mais realizar seus filmes numa pena de 20 anos, em prisão domiciliar, o mundo ficou indignado e se pronunciou a seu favor. Até hoje ele continua impedido de filmar, e, ao invés de aceitar suporte para se refugiar em outro país como um pária, ele prefere continuar filmando sua indignação clandestinamente na pátria e traficá-la internacionalmente, como já o faz agora em sua terceira obra sob esta condição, “Taxi Teerã”. Muito além de o próprio se tornar personagem de suas histórias, a sua falta de liberdade é que se tornou protagonista. E mais uma vez laureado, com o Urso de Ouro e o prêmio FIPRESCI no Festival de Berlim 2015, com certeza o realizador se superou.

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No primeiro filme clandestino em prisão domiciliar, “Isto não é um Filme”, Panahi já revisitava sua filmografia, estudando cenas famosas e fazendo a leitura cênica do tal roteiro censurado, que lhe valeu a condenação do Tribunal iraniano, sozinho em sua própria casa. Em “Cortinas Fechadas”, ele criou personagens fictícios em analogia à sua situação, vendo o mundo do interior de sua casa de veraneio. Agora, não mais atado à prisão domiciliar, ele sai e vai filmar nas ruas, disfarçado de taxista, com inúmeras câmeras dentro de seu veículo a imitar um documentário com cada passageiro que conduz. Dirigindo seu filme a partir do volante, ele retrata as verdadeiras ruas do Irã, com gente comum, mulheres e homens, esclarecidos ou retrógrados, abastados ou humildes. Num giro Copérnico narrativo, como num virar da câmera de fora para dentro do carro, a fachada de documentário se pretende ir apenas até certo ponto, porque os personagens começam a duvidar uns dos outros, uma vez que descobrem que estão dentro de um filme, como um jogo para saber quem estaria encenando e quem seria acidental dentro daquele táxi coletivo. Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que todos os diálogos e situações foram tirados diretamente de testemunhos reais. Porém, o diretor inteligentemente levanta a questão se aqueles a recitar os diálogos na tela corresponderiam ou não com a realidade. Basta dizer que são todos não-atores, e que podem ter um vínculo afetivo com ele, pois, caso não possuíssem, não iriam querer se expor de tal forma num ato revolucionário contra o governo em filmar com um condenado.

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Por exemplo, a menina sagaz que dá vida e humor a partir da metade da projeção, como uma coprotagonista na pele da consciência do motorista que Panahi interpreta, numa simbiose tipo “O Garoto” de Chaplin, realmente é a sobrinha dele na vida real. No entanto, acertar quem é quem talvez seja o menos importante. Este jogo de cena oculta uma narrativa sutil e possante. Temas que passeiam pela metalinguagem de se fazer o próprio cinema, como no personagem do vendedor de filmes piratas disseminador de cultura onde esta não alcançaria normalmente, ou nas lições preconceituosas sobre cinema que a sobrinha é obrigada a levar pra casa; sem falar na importação comercial de produtos americanos. E este jogo chega até a repressão político-social no Irã, retratada por pessoas como um antigo vizinho de Panahi que caiu em um golpe, ou na advogada que o defendeu no processo do governo contra seus filmes. Todos passageiros em seu táxi-confessionário, uma inspiração tirada do filme “Dez” de seu amigo cineasta também famoso Abbas Kiarostami, onde uma mulher dava carona a outras que contavam suas histórias.

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As autorreferências estão presentes, claro, amplificando o aproveitamento para os espectadores mais experientes com a filmografia do cineasta, o que não significa que uma plateia completamente leiga deixaria de compreender e se encantar com esta que é sua história mais universal e biográfica desde a prisão domiciliar. Além de que a edição e montagem das imagens capturadas pelas várias câmeras dá um dinamismo a nem parecer que a visão fica presa ao táxi todo o tempo, mesmo quando algum dos passageiros filma com seu próprio celular ou câmeras. E nesta multiplicidade de tecnologias e mídias modernas, ele analisa tanto a diferença arcaica de gêneros na opressão da mulher quanto a de hierarquias sociais na criminalidade vista por vários ângulos, como a partir do próprio criminoso ou da vítima, ou mesmo da negligência do Estado para deixar que estes crimes acabem sendo inevitáveis dentre camadas menos favorecidas como atos revolucionários de inconformismo. É impressionante como, ao retratar algo extremamente local, Panahi traça paralelos identificáveis em qualquer país do mundo, inclusive Brasil, com uma única emoção extremamente global.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5