Timbuktu estreia ainda apenas em SP

Um dos mais originais indicados ao Oscar 2015 de filme em língua estrangeira

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09 de fevereiro de 2015

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Um lugar onde lágrimas secam no rosto de tão salgado que é o ar cercado de areia e dunas.
Esta frase decerto diz muito sobre “Timbuktu” (idem, de Abderrahmane Sissako), lugar que dá nome ao filme e também onde se passa a narrativa árida e sutilmente irônica a criticar regimes autoritaristas contra populações comuns, tanto que é o indicado do país da Mauritânia (na África) para concorrer ao Oscar de 2015.

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De uma beleza singela, esta obra redondinha conta com fotografia magistral, grandes planos abertos no deserto, tomadas suntuosas e roteiro inteligente, sabendo criticar e até fazer graça de maneira elegante sem ridicularizar o tema. Tudo se desenvolve a partir de um regime totalitário islâmico jihadista. Leia-se: não estão generalizando. Muito pelo contrário, há religiosos de bem lutando contra a facção extremista. O lado humano, sem abstrair do contexto politizado, é o cerne da questão: ou seja, as pessoas contra quem são impostas as regras das mais absurdas. Exemplos vão desde mulheres terem de se cobrir e até obrigatoriamente usar meias, ao toque de recolher e proibição de ouvir/cantar música. Todos puníveis com a morte.

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E é do contexto social-humano que o diretor cria identificação com o espectador para ele se sentir à vontade quanto dentro das anedotas de país tão longínquo, extraindo certo humor tragicômico e grandes cenas. Como a lúdica partida de futebol sem bola (que também era proibida), a vítima de chicotadas que não desiste de cantar lindamente, e o plano sequência inteiro do destino da carismática vaca GPS (alguém lembrou do Baleia do livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos?). A angular gigantesca de câmera mostrando o dono da vaca a tirar satisfação com o pescador, cada qual em uma extremidade de margens opostas do rio é admirável. Não se engane caro leitor cinéfilo: mesmo com o tom de fina ironia, fazendo parecer que o regime jihadista depõe contra si mesmo pelas idiossincrasias e anacronismos, ainda assim esta obra ímpar não atenua a denúncia e conta uma grande história.

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Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama de Cinema Mundial

“Timbuktu” (“Timbuktu”)

França, 2014. 100 min.

De Abderrahmane Sissako

Com: Abel Jafri, Ahmed Ibrahim, Toulou Kiki

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5