Tomorrowland

Aventura oitentista naïf com tecnologia futurista à la Spielberg

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05 de junho de 2015

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O diretor Brad Bird vem ascendendo aos poucos, mas constante. De animações de baixo a depois alto orçamento, como “O Gigante de Ferro” e “Os Incríveis” respectivamente, que o alavancou a trabalhar com a poderosa Pixar e então Disney. Mas não só de desenho vive a carreira do cineasta. Quando fez seu primeiro live action, “Missão Impossível: Protocolo Fantasma” surpreendeu ao refrescar a franquia cansada de Tom Cruise, adicionando seu diferencial, desde figurinos e ambientação estilosas à la Sean Connery como Bond, bugigangas e apetrechos retrô-modernos sem nunca se tornar refém deles, ao constante caráter de superação, com personagens que começam desgastados e obsoletos e se renovam. Agora os estúdios Disney lhe confiou um sonho. Um do saudoso pai dos sonhos, o Sr. Walt Disney.

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De todos os filmes e parque temáticos notabilizados pela marca, Walt concebeu algo visionário. A terra do futuro. Algo meio “Os Jetsons”, com jatos voadores, transportes desmoleculizadores e arranha-céus pontiagudos. Para um estúdio que conseguiu fazer um de seus parques de diversões virar filme em “Piratas do Caribe”, por que não transformar um filme em parque de diversões? Proposta ousada, co-roteirizada por Damon Lindelof, co-criador de Lost, e por isto se explique a trama que vai e volta no tempo, mas fluidamente desta vez, diferente de Lost, rs. A isto une-se um nome carro-chefe como George Clooney. E se ressuscita outro, da tv, para voltar a dar chances no cinema, o bom e rabugento Dr. House, Hugh Laurie. E ainda a velha temática um tico panfletária de ‘o que estamos fazendo com o mundo’ ou ‘como impediremos as catástrofes naturais que o comportamento do homem está gerando’….?

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Bastante coisa para um projeto só. E resultados inusitados igualmente. O primeiro que, enquanto filme, funciona. Não sendo a quintescência dos blockbusters, e residindo o maior carisma não em Clooney, nem na quase novata nos cinemas, a promissora revelação das telinhas Britt Robertson, e sim na coadjuvante mirim, a ótima Raffey Cassidy, um misto entre uma Audrey Hepburn criança com uma Super Vicky. Delicada e perigosa, ela é quem consegue aparafusar o tom do ritmo do filme, que demora a pegar no ponto, justamente por precisar introduzir o background de seus dois protagonistas e sua relação com a tal terra do futuro, paralela a nossa, e por que ambas podem estar em perigo. Boa parte da projeção se ocupa a princípio num tom maior de deslumbramento, com a fotografia do chileno Carlos Miranda, de “As Aventuras de Pi”, tipo aquele deslumbramento que marcou gerações quando Spielberg mostrou pela 1a vez ao mundo dinossauros realmente críveis, e só deu a louca no parque dos dinossauros da metade pro final do filme. Porém tensão, sempre necessária para a dialética de uma história, não depende de ação. A própria dubialidade moral de personagens pode gerar tensão. O que aqui não acontece tão cedo. É só a partir da personagem de Raffey que você começa a não saber mais em quem acreditar, até desembocar numa bela homenagem a todos os fãs da ficção científica numa loja nerd com mil referências aos filmes do gênero, inclusive os do próprio diretor. É para estes fãs, e para pessoas com espiritualidade aguçada relativa ao futuro da humanidade, contra catástrofes e opressão tecnológica, que esta película tocará mais a fundo. Para todos os outros, uma diversão às vezes fora de ritmo e com algumas barriguinhas de roteiro, quase apagando um pouco Clooney, que engata quando permite ao espectador enfim usar o parque de diversões e não só encará-lo de uma prateleira virtual.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3