Últimas Conversas

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07 de maio de 2015

No dia 2 de fevereiro de 2014, a morte noticiada de Eduardo Coutinho chocou até mesmo aqueles que não tinham a menor familiaridade com a obra do cineasta de “Cabra Marcado Para Morrer” (1984) e “Edifício Master” (2002). A vida do documentarista foi abreviada da pior maneira possível: assassinato a facadas perpetrado pelo próprio filho, Daniel Coutinho. No surto, provocado por transtornos mentais, nem a mãe do agressor foi poupada. Maria das Dores Coutinho, também ferida a facadas, saiu viva após socorro médico. Ao contrário do marido, já encontrado morto pela polícia na residência da família, um apartamento localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Infelizmente, falar de um novo filme de Eduardo Coutinho, nessas condições póstumas, estimula essa introdução que dialoga com uma reportagem policial das páginas do jornal. Ver o filme nessas mesmas condições, querendo ou não, modifica a experiência sensorial do espectador que vê com concretude aquilo que não existe mais, um reflexo. Montado por Jordana Berg, com versão final de João Moreira Salles, o longa em questão é “Últimas Conversas”. Uma tentativa de delinear o modo como funciona a mentalidade de jovens estudantes; tarefa difícil, já que todo mundo sabe como funciona, ou não funciona de tão desordenada, a mentalidade nesse período da existência. Quem nunca passou por isso?

últimas2O início de “Últimas Conversas” é especialmente pungente. O próprio Coutinho desabafa antes de ceder a vez aos seus entrevistados. Na magia de ressurreição que o cinema executa perfeitamente, ele está descrente, cético quanto à mensagem que quer transmitir no momento. Insatisfeito mesmo. O diretor não queria falar com jovens, cheios de influências externas, mas preencher seu documentário com a espontaneidade de crianças. A confissão de decepção incomoda já que sabemos que não haverá uma nova chance, mas mesmo assim, fica a certeza de que nada ali decepcionará, bastava o entrevistador por excelência acreditar nisso. Quando as conversas se iniciam, percebemos que a essência está em seu lugar, intacta. Perguntas curtas seguidas pelas respostas dos entrevistados, estudantes da rede pública de ensino, e a influência certeira do cineasta. Nos depoimentos, vemos realidades que conhecemos bem como bullying, inadequação social, famílias despedaçadas, racismo. No meio disso, um silêncio estranhamente trágico após menções ao amor e à morte. Como não considerar o real? Um filho, receptor natural de vida e amor, que “oferece” a morte ao próprio pai. A última entrevistada de Eduardo Coutinho é, enfim, da classe que ele gostaria. Uma menina que explica quem é Deus na sua ingênua concepção. Umas palavras que enchem de alegria o coração do diretor, e também do público. Um final redentor. “Últimas Conversas”, imensamente eficaz, deixa ainda mais vivas as lembranças da habilidade maior de Eduardo Coutinho. Dar voz a indivíduos calados e corpo a vivências ocultas. Uma autenticidade que permanece inalterada por mãos corretas, de Jordana Berg e João Moreira Salles. Sucesso para você Eduardo Coutinho, agora é só descansar em paz.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5