Um Filme Francês

Como fazer um filme francês com extremo carioquês.

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24 de setembro de 2015

Existem gerações e gerações de cinéfilos influenciados por vários gêneros e épocas. Às vezes esses cinéfilos se tornam cineastas e fazem belas homenagens ao cinema. A geração da Nouvelle Vague com Truffaut e Godard começou assim, escrevendo profundas análises sobre os filmes do mundo todo até que pegaram uma câmera e começaram a fazer os seus próprios. E que belo círculo virtuoso é esta influência viajar o mundo e gerar novos frutos, como o nosso representante tupiniquim de uma nova ‘Nouvelle Vague’ brasileira Cavi Borges. Dono de uma antológica locadora no Humaitá onde tudo se possa achar, começou a defender o cinema como produtor, investindo na sétima arte, alçando vôos também como diretor primeiro de documentários e depois romances de Ficção.

10477425_664903606920104_8097179855932112423_oApaixonado pela cidade, como sua característica em retratar os melhores ângulos e pontos marcantes do Rio, desde os notórios como MAM, Aterro e Praias, aos recônditos maravilhosos de cachoeiras em trilhas escondidas ou saraus de poesia em pubs seletos como o verídico Corujão da Poesia. Mas foi além. Usou a metalinguagem tipicamente francesa para criar a sua. E Caví Borges elegeu como seu alter ego a musa inspiradora Patrícia Niedermeier, inclusive com seu sobrenome: Cleo Borges. Ela está filmando um filme no Rio, e sua atriz principal não à toa se chama…..Patrícia.

Num triângulo amoroso que vai sendo deliciosamente desvelado, a história dentro da história vai repetindo o jogo de sedução, primeiramente por parte do protagonista masculino, na pele de Erom Cordeiro, e, depois, da cineasta fictícia, inserindo-se ela mesma na química dos atores, para mostrar quem manda ali, num eu lírico feminimo corajoso e vanguardista. O mais delicioso é ver os bastidores da história se desenvolver conforme o filme dentro do filme é filmado, e como se dão certas decisões de produção; uma verdadeira aula de cinema.

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A belíssima fotografia desnuda a cidade carinhosamente, como um Woody Allen em formação, e as curvas de nossas montanhas, mares e ruas vão percorrendo os dilemas internos dos protagonistas como a um espelho. Tudo acentuado pela bossa em preto e branco que cria um gingado de referências aos maiores filmes da Nouvelle Vague como “Acossado” e “O Desprezo” de Godard e “Os Incompreendidos” de Truffaut, sem falar na trilha sonora em consonância com esta proposta. Esta é a diferença entre homenagem e cópia, sendo que Cavi soube fazer a 1a opção com louvor. Talvez a única parte que poderia ter um pouco mais de leveza fossem as explicações das próprias referências a partir do terça parte final, e um pouco de autorreflexão demais do próprio diretor através de seu alter ego na tela, mas nada que o público mais casual de cinema não precisasse como um empurrãozinho para se aprofundar mais.

Sem falar na deliciosa cena que encerra a obra dando-lhe toda uma nova dimensão e valendo rever o filme sob uma ótica completamente nova.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4
  • Patricia Niedermeier

    Bellissimo texto!!!! Ampliando nossa percepçao do filme e do mundo!!! Um texto “Mapa aberto” para ir a lugares desconhecidos e novos!!! Obrigada!