Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência

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29 de maio de 2015

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“Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo sobre a Existência” (no original sueco, “Em Duva Satt pä em Gren och Funderade pä Tillvaron”). Título esdrúxulo. Filme mais ainda. Mas não indecifrável como alguns estão propondo. Muito mais uma divertida catarse da vida em esquetes ora tragicômicas, ora sutilmente líricas ou mesmo seriamente ridículas como alguns momentos mais absurdos e simplórios do dia a dia. Nada mais é do que o desfecho de uma trilogia sobre o ser humano, após “Canções do Segundo Andar” e “Vocês, os Vivos”, mas cujos três filmes não continuam a história uns dos outros, apenas a temática e a reflexão sobre a existência, perdão o trocadilho.

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Concebida pelo sueco Roy Andersson, a saga sobre o ridículo que há em todos nós, quando mais nos revelamos nus e crus, culmina neste exemplar que garfou o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2014. Narra a história sobre dois caixeiros viajantes, vendedores de artigos para animar festinhas de crianças, porém que em nenhum momento são vendidos como tal, e sim para adultos sem graça e sem vida, mais uma das paródias metafóricas sutis do filme. Aliás, os dois patetas, aludindo a uma comicidade antiga, muito natural, calcada em rir ‘da’ e ‘na’ melancolia alheia, desde Buster Keaton e o pobre vagabundo Carlitos, nem são o centro da trama, e sim apenas o fio condutor, quase como se fossem expectadores como nós na plateia da vitrine do tempo. Tempo este que por sinal passeia pela história, passada, presente e futura. Como por exemplo, parodiando da Realeza antiga, inserida no ambiente moderno numa das cenas mais teatralmente difíceis de se filmar, onde uma enorme e incessante cavalaria da guarda real invade literalmente um bar, expulsando as mulheres, apenas para seu Rei beber água e arregimentar o jovem rapaz por quem ficou atraído quando o serviu, como se espelhasse a pulsão de morte e fálica de uma guerra misógina atemporal; bem como passeia depois por outro tipo de elite, não mais a de sangue real, mas de bolsos de ouro, a decadência-chique da burguesia, que se entretêm num futuro próximo com fornos que lembram Auschwitz, porém com africanos, como se aludisse ao berço do mundo sendo abusado pela própria evolução.

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A este momento o leitor pode se perguntar onde se encaixa o tal pombo do título? Bem, duas menções: a primeira na cena de abertura, onde um casal passeia por um museu e vê a escultura homônima ao filme com um pombo empalhado num galho. Objeto e sujeito encarando mutuamente como se misturando um ao outro. A segunda, o fato de um pombo poder voar acima de todos nós, tendo uma visão privilegiada do quadro-geral, mas que nada pode mudar. Quase um determinismo filosófico à la Spinoza. E assim seu diretor, também roteirista, trabalha as cenas, com uma ingenuidade quase aparvalhada, mas brutal. Cada cenário é um quadro, um misto do holandês Vermeer e suas peles lívidas em meio à sobriedade burguesa em tons pastéis, bem como a solidão em espaços vazios de Edward Hopper. As personagens têm seus rostos pintados como se tão brancos que estivessem entre a vida e a morte, ao mesmo tempo que os ambientes mergulham em tons terrosos, misturados com um ou outro toque de cor excêntrico. Tudo isto a se encaixar com a divisão em capítulos, desde o primeiro que já versa com humor negro excepcional sobre a morte, aos seguintes que voltam o olhar para os que ficam… Note-se que Roy trabalha o tempo todo com descontinuidade que se interliga como colcha de retalhos, com inúmeros personagens aparentemente dispersos, mas que aparecem uns nos seguimentos dos outros, ou mesmo falando ao telefone com outras cenas, sendo interessante encaixar as partes. Ainda assim, parece que o cineasta consegue passar a moral da história antes do final do filme, e depois apenas repete as mesmas metáforas com cenas cada vez mais grandiloquentes, o que pode soar pretensioso para uma parte dos espectadores, infelizmente, pois o conjunto vale e muito o meticuloso trabalho artesanal único no cinema europeu hoje em dia.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4