Um Santo Vizinho

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22 de fevereiro de 2015

Escrito e dirigido por Theodore Melfi, “Um Santo Vizinho” (St. Vicent, 2014) destoa do caminho escatológico que as comédias norte-americanas vêm tomando. Apesar de possuir a estrutura básica de filmes do gênero (antagonistas que se atraem), este é um filme reflexivo que faz fortes críticas a uma geração desiludida que quase nunca consegue alcançar o equilíbrio social (os típicos loosers).

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Na trama, a recém-separada Maggie se muda com seu filho Oliver, para a casa ao lado de um sujeito falido, grosso e beberrão. Sem grana para pagar uma baby-sitter, Maggie aceita que Oliver passe os dias com Vincent que cobra por hora pelos serviços. Apesar das diferenças, Vincent conquista a simpatia do garoto e vice e versa.

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Melfi não se inibe em sua primeira incursão em longas-metragens. Cercado por um timaço de atores veteranos e novatos, o diretor faz questão de tirá-los da zona de conforto alterando seus códigos visuais. Portanto temos a comediante Melissa McCarthy, completamente contida, acertando em um papel dramático como uma sofrida mãe que trabalha em dobro para sustentar seu filho pequeno, Oliver (o adorável Jaeden Lieberher). Ao mesmo tempo, Naomi Watts abre mão da vaidade e aparece como uma prostituta russa carregando um indecente barrigão, enquanto Bill Murray brilha soberano como o asqueroso Vincent (papel escrito para Jack Nicholson que recusou o convite).

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Todo mundo gosta de assistir crianças precoces questionando o comportamento infantil dos adultos, e “Um Santo Vizinho” (St. Vincent) faz isso muito bem. O filme contém vários clichês que funcionam, pois consegue atrair a identificação primária da platéia e flertar com outras possibilidades. Não há explicações detalhadas para tudo o que acontece, surpreendendo o espectador que fica a espera de uma recompensa benevolente. A dívida com Zucko (Terence Howard) e o precário estado de saúde de Vincent aparecem apenas como mais um estorvo na história, mas esta é a grande surpresa do roteiro. Seus personagens nunca sofrem grandes transformações. Eles simplesmente acreditam que algo de bom acontecerá. O resumo deste mote pode ser facilmente compreendido na sequência dos letreiros finais (não é spoiler) quando Vincent relaxa em uma velha espreguiçadeira, tentando regar um vaso de plantas semimortas ao som de uma canção de Bob Dylan (o eterno menestrel da esperança).

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Se este singelo filme tem uma moral, ela pode ser resumida na espirituosa frase repetida várias vezes ao longo da trama. “A vida é como ela é”. Às vezes tem sentido, às vezes não.

Um Santo Vizinho (St. Vincent)
Eua, 2014. 102 min.
Direção: Theodore Melfi
Com: Bill Murray, Melissa McCarthy, Naomy Watts, Jaeden Lieberher, Terence Howard

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4