Um Senhor Estagiário

por

24 de setembro de 2015

Sob camadas de diversão despretensiosa, chega aos cinemas “Um Senhor Estagiário”, novo filme da cineasta Nancy Meyers conhecida pela condução de longas de temática leve como “O Amor Não Tira Férias” (2006) e “Simplesmente Complicado” (2009). Com Robert De Niro e Anne Hathaway nos papéis principais, o filme prova que é possível conjugar entretenimento e reflexão dentro dos moldes tradicionais narrativos e do formato vendável para o grande público. Driblando armadilhas do argumento não muito original, o filme “Os Estagiários” (2013) protagonizado pela dupla Vaughn-Wilson tinha temática semelhante, “Um Senhor Estagiário” faz boa escolha ao partir de um princípio importante para todos. Afinal, os jovens de hoje vão acabar lidando com as consequências da passagem do tempo. Em papel diametralmente oposto aos mafiosos que interpretou ao longo da carreira, Robert De Niro está desta vez na pele do aposentado Ben. Viúvo, do topo de seus 70 anos e sempre em busca de ocupação, Ben é um exemplo aos idosos que acreditam no ostracismo como única opção após a aposentadoria. Dentro de sua rotina, ele descobre por acaso um programa de “Estágio Sênior” oferecido pela empresa de moda “About the Fit”. Sem pestanejar e com ânimo jovial, Ben se inscreve no programa e passa por todas as etapas, até conseguir a vaga.

Com perspicácia na utilização da referência, “Um Senhor Estagiário” coloca Anne Hathaway como Jules Ostin, jovem CEO da empresa. Atribulada em excesso com a ascensão meteórica da carreira, o sucesso de Jules acaba dialogando, pela inversão das posições, com a submissão da personagem que interpretou em “O Diabo Veste Prada” (2006) ― a assistente Andy, sempre sob a chibata da editora-chefe Miranda Priestly (Meryl Streep) nos bastidores da revista de moda Runway. Dono de uma inestimável experiência de vida, Ben é logo designado para ser o assistente de Jules. É no convívio dos dois, catapultado pelo comportamento pró-ativo do novo estagiário, que o longa desenvolve com habilidade a mensagem ― toda pessoa, com sua própria bagagem de vida, tem o que aprender e ensinar. A cumplicidade entre Ben e Jules ganha uma complexidade animadora de se ver no cinema pipocão: ultrapassa os limites físicos da empresa e das relações entre chefe e subalterno, desprezando o rígido protocolo hierárquico.

Na amistosa interação entre pessoas de gerações diferentes, com seus respectivos costumes, Nancy Meyers proporciona ao espectador a oportunidade de rir, mas sem excessos capazes de deformar todo o resto. Até o exagero cômico de uma sequência, a invasão residencial liderada por Ben para excluir um e-mail comprometedor que Jules enviou por engano, soa aceitável e concernente aos momentos de alívio oferecidos. O estagiário Ben, ainda adepto do despertador analógico e do terno em um ambiente de trabalho casual, passa a ter mais contato com o universo tecnológico, hábito que culmina em sua introdução no universo do Facebook. Em compensação, para os colegas mais novos, como Davis (Zack Pearlman) e Jason (Adam DeVine), ele ensina a importância de um lencinho de bolso, item de cavalheirismo indispensável para enxugar lágrimas de uma dama. No contato entre o antigo e o novo, o moderno e o obsoleto, “Um Senhor Estagiário” exibe seu valor no circuito comercial cinematográfico, sem vergonha de prescindir de conteúdo intelectualizado. O carismático personagem de Robert De Niro é o perfeito mensageiro de uma contestação frequentemente esquecida ― aprendizado de vida e a vontade de agir, enquanto se tem ar para respirar nos pulmões, são valores que nunca saem de moda.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4