Uma Nova Amiga

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22 de julho de 2015

Não é sempre que um filme como “Uma Nova Amiga”, do cineasta francês François Ozon, surge no circuito para dar uma boa sacudida nos padrões estabelecidos. Desde os primeiros sinais de discernimento da criança, inculcam-se hábitos que delimitam as fronteiras entre os gêneros masculino e feminino ― meninos usam azul, meninas rosa; meninos brincam com carrinhos, meninas com bonecas, só para citar alguns exemplos das proibições diárias com as quais a infância têm de lidar. No labirinto da complexidade humana, nem sempre esse paradigma simplista faz sentido. O mais novo filme de Ozon evidencia, com esplendor narrativo, que o corpo humano, para além da constituição de sua genitália, pode encontrar a plenitude em elementos destinados a outro universo. É o caso do personagem David, interpretado por Romain Duris, que encontra o próprio renascimento, após a morte da esposa, ao apropriar-se de elementos do sexo feminino ― salto alto, peruca, maquiagem.

O clima de luto da abertura, o ritual de vestir o cadáver (cena orquestrada com máxima atenção aos detalhes), o velório e o sepultamento, tem o seu contrapeso nas origens de uma amizade que começa com o encontro de almas gêmeas: Laura (Isild Le Besco), morta precocemente, e Claire (Anaïs Demoustier), que agora terá que aprender a viver sem a amiga. As duas se conheceram ainda crianças, se divertiram juntas e selaram a união com um pacto de sangue. Com a evolução do corpo, ambas conheceram o amor, o que certamente implica certo ciúme, e chegaram até a etapa do altar. A lacuna deixada pela morte de Laura inclui uma filha ainda bebê e David, o marido despedaçado. Claire tem uma promessa a cumprir, mesmo casada com Gilles (Raphaël Personnaz) ― cuidar da família de sua alma gêmea, uma parte dela que ainda continua próxima, viva.

De maneira discreta, mas sem perder a eficácia, François Ozon recicla elementos da própria cinematografia em “Uma Nova Amiga”. É nos domínios da residência do outro, de David, que Claire experimenta o sabor adocicado da rotina alheia. Assim como o estudante Claude (Ernst Umhauer), no filme “Dentro de Casa” (2012). Claire, ao adentrar na casa que Laura divida com a família, descobre David em sua forma mais verdadeira ― vestido de mulher, ele alimenta a filha. A desculpa inicial, sob o olhar espantado de Claire, é que ele faz isso para suprir a carência de uma figura feminina na criação da menina. No entanto, já está claro, inclusive para o espectador, que David é mais do que aparentava ser. A experimentação do corpo mostrada no filme “Jovem e Bela” (2013), através da prostituição, assume agora nova forma: desta vez, o corpo masculino se reverte em tela branca para tintas da maquiagem, bem como em instrumento para uma banida forma de ilusionismo ― a arte de um homem se parecer com uma mulher. Claire, por sua vez, embarca na aventura. David é uma pessoa, Virginia (seu nome sob os trajes femininos) é outra. Pedro Almodóvar, admirador da fêmea por excelência, choraria de emoção na sala escura do cinema. Na relação oculta desenvolvida entre Claire e Virginia, a dor do vazio deixado por Laura é aplacada cada vez mais. Existe ali, entre a dupla, um afeto que vai muito além dos órgãos sexuais e um sofrimento que surge porque existe um padrão tradicional a seguir. Como reagir se a satisfação está no caminho contrário? Um questionamento que faz sentido tanto para David, que precisa travestir-se, quanto para Claire, que divide a cama com um marido másculo. “Uma Nova Amiga” não tem a pretensão de responder perguntas, mas suscita reflexões que mantêm acessa a chama do dilema. François Ozon, em um longa incorrigível, além de lançar luz na agonia de não pertencimento ao corpo que se tem, louva o “bizarro”, entre aspas mesmo. Afinal, somos nós, donos do olhar condicionado, que julgamos com frequência o que é estranho à concepção.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5